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Delírios psiquiátricos e atribuição de estados mentais irracionais

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Projeto provisório de doutorado
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Chico Xavier

Content Preview
Del´ırios psiqui´
atricos e atribui¸

ao de
estados mentais irracionais
Jos´e Eduardo Freitas Porcher
UFRGS/CNPq
10 de Novembro de 2010
Enuncia¸

ao do problema
Trata-se de proceder ao exame dos casos mais problem´
aticos para a atribui¸c˜
ao de
cren¸cas, a saber, os del´ırios psiqui´
atricos, e ao refinamento da compreens˜ao dos
estados mentais que caracterizam esses fenˆomenos. Por serem casos problem´
ati-
cos para a atribui¸c˜
ao de cren¸cas, os dist´
urbios de que trata este projeto suscitam
uma dificuldade para a metodologia da atribui¸c˜
ao de atitudes proposicionais em
geral.
Exposi¸

ao e justifica¸

ao te´
orica
‘You must always be puzzled by mental illness. The thing
I would dread most, if I became mentally ill, would be your
adopting a common sense attitude...’
Ludwig Wittgenstein
In: R. Rhees (ed.), Recollections of Wittgenstein, p. 152.
Na filosofia da linguagem, a atribui¸c˜
ao de atitudes proposicionais tem sido
vinculada explicitamente `a atribui¸c˜
ao de racionalidade no m´ınimo desde a in-
vestiga¸c˜
ao de Frege sobre a diferen¸ca e a identidade de conte´
udos de atitudes
proposicionais. Eis uma formula¸c˜
ao canˆonica do crit´erio de Frege:
Se, em um dado momento, temos dois epis´odios mentais de apreens˜ao
de um pensamento por um ´
unico sujeito, os pensamentos apreendi-
dos atrav´es desses epis´odios ser˜ao diferentes, se e somente se o sujeito
puder, racionalmente, portar atitudes contr´arias em rela¸c˜
ao a eles.
(Dokic 1996, 182, grifo meu)
Na filosofia da psicologia, essa suposi¸c˜
ao de racionalidade fundamenta a ideia
de que a descri¸c˜
ao e interpreta¸c˜
ao de casos de comportamento irracional nos ter-
mos da psicologia popular (e.g. ‘cren¸ca’, ‘desejo’, ‘inten¸c˜
ao’) ´e sempre problem´
a-
tica. A vincula¸c˜
ao do uso desses termos a uma suposi¸c˜
ao geral de racionalidade
´
e amplamente apoiada na literatura filos´ofica:
1

Se formos inteligivelmente atribuir atitudes e cren¸cas, ou utilmente
descrever movimentos como comportamento, ent˜
ao estaremos em-
penhados em encontrar, no padr˜
ao de comportamento, cren¸ca e de-
sejo, um elevado grau de racionalidade e coerˆencia. (Davidson 1974,
237)
Atitudes proposicionais tˆem seu lar adequado em explica¸c˜
oes de
um tipo especial: explica¸c˜
oes pelas quais as coisas s˜ao tornadas in-
telig´ıveis porque se revelam ser, ou porque se aproximam de ser como
elas devem ser racionalmente. (McDowell 1985, 389)
Quando n˜
ao somos [racionais], os casos desafiam a descri¸c˜
ao em ter-
mos normais de cren¸ca e de desejo. (Dennett 1987, 87)
Como se pode observar, a teoria que subjaz essas afirma¸c˜
oes—por vezes de-
nominada ‘interpretismo’—enfatiza a racionalidade quase `
a exclus˜ao de quais-
quer outras considera¸c˜
oes. Todavia, a observa¸c˜
ao do seu uso denota que a
categoria ‘cren¸ca’ est´
a longe de ser homogˆenea. Assim como muitos outros ter-
mos da psicologia popular, h´
a uma s´erie muito variada de estados mentais os
quais estamos preparados a denominar ‘cren¸ca’. Ademais, o que d´a `as cren¸cas
o seu papel central na filosofia da mente, na filosofia da a¸c˜
ao e na epistemologia
´
e o fato de que s˜ao elas que norteiam nossas a¸c˜
oes, nossas rea¸c˜
oes, e as nossas
cogni¸c˜
oes em geral, incluindo tanto nossas hip´
oteses e inferˆencias espontˆ
aneas
quanto nossas reflex˜
oes mais ponderadas. Para tomar emprestada uma met´afora
de Ramsey (1931/2001, 238): cren¸cas s˜ao os mapas pelos quais nos guiamos.
Endossar sinceramente e verbalmente uma proposi¸c˜
ao ´e um modo importante
pelo qual guiamos, mas n˜
ao ´e por si s´o suficientemente importante para justificar
dar a um conceito que ´e definido exclusivamente nestes termos o papel central na
filosofia que a cren¸ca possui; o que mais importa ´e como n´
os guiamos em geral.
E no caso de vieses cognitivos,1 autoengano2, e em casos de del´ırio, o modo
como guiamos ´e manifestamente confuso e tudo indica que n˜
ao h´
a um ´
unico
mapa coerente. Por si s´
o, isso pareceria constituir motiva¸c˜
ao o bastante para
uma revis˜
ao dos nossos crit´erios de atribui¸c˜
ao de cren¸ca e racionalidade. Como
veremos a seguir, por´em, a revis˜ao da concep¸c˜
ao tradicional que as cita¸c˜
oes
acima instanciam enfrenta uma s´erie de dificuldades e suscitam at´e mesmo o
abandono total da tentativa de descrever del´ırios como cren¸cas irracionais.
Del´ırios
A ´
ultima revis˜ao do Manual Diagn´
ostico e Estat´ıstico de Transtornos Mentais
(DSM-IV-TR) da Associa¸c˜
ao Americana de Psiquiatria traz a seguinte defini¸c˜
ao
1
Um vi´
es cognitivo (cognitive bias) nada mais ´
e que uma tendˆ
encia a cometer erros sistem´
ati-
cos de racioc´ınio. Esses vieses podem resultar de atalhos de processamento de informa¸c˜
oes
e incluem erros de ju´ızo probabil´ıstico (e.g. fal´
acia da conjun¸c˜
ao), atribui¸c˜
ao social (e.g.
superioridade ilus´
oria) e da mem´
oria (e.g. retroprofecia). Cf. Nisbett & Ross (1980).
2
Embora ainda resista defini¸c˜
ao em termos precisos e n˜
ao seja mat´
eria de consenso, o au-
toengano ´
e majoritariamente considerado um produto de vieses cognitivos que prov´
em da
motiva¸c˜
ao do sujeito (Kunda 1990), os quais o levam a formar irracionalmente uma cren¸ca
falsa ou, ao menos, sem justifica¸c˜
ao (Mele 2001). Na primeira metade da minha disserta¸c˜
ao
de mestrado, abordo o tema do autoengano precisamente em busca de uma resposta para
o problema que sugiro agora perseguir atrav´
es dos del´ırios psiqui´
atricos: que li¸c˜
oes pode a
filosofia da mente aprender com o estudo da irracionalidade humana?
2

de ‘del´ırio’:3
Uma cren¸ca falsa baseada em inferˆencia incorreta sobre a realidade
exterior que ´e firmemente sustentada apesar do que quase todas as
outras pessoas creem e apesar do que constitui incontrovert´ıvel e
´
obvia prova ou evidˆencia do contr´ario. (APA 2000, 821)
Muito embora quase todos os aspectos dessa glosa sejam debat´ıveis, meu inter-
esse principal jaz nas implica¸c˜
oes filos´oficas da atribui¸c˜
ao de cren¸cas a pacientes
de del´ırios (Radden 2010, 44-48). Antes de explicitar algumas das dificuldades
que permeiam essa atribui¸c˜
ao, por´em, ser´a vantajoso mencionar casos de del´ırios
para que se esclare¸ca o tipo de fenˆomeno ao qual se est´
a referindo nessa discuss˜
ao.
O del´ırio de Capgras foi primeiramente descrita por Capgras & Reboul-
Lachaux (1923) no artigo ‘Illusion des sosies dans un d´elire syst´ematis´e chronique’,
assim intitulado por descrever o caso de uma paciente que afirmava que v´arios
s´osias haviam tomado o lugar de seus entes queridos. Este tipo de del´ırio ´e
denominada monotem´
atico para distingui-lo de del´ırios politem´
aticos presentes,
por exemplo, em diversos casos de esquizofrenia (Schreber 1903/2000). Cap-
gras ´e tamb´em denominada uma s´ındrome de erro de identifica¸c˜
ao, assim como
outros exemplos cl´
assicos como o del´ırio de Fregoli ou a intermetamorfose.
Leopoldo Fregoli foi um ator italiano famoso por trocar de figurino de forma
espantosamente r´apida. Courbon & Fail (1927) primeiro descreveram o del´ırio
no artigo ‘Syndrome d’illusion de Fr´egoli et schizophr´enie’, onde apresentaram
o caso de uma mulher de 27 anos que afirmava que estava sendo perseguida por
dois atores que via frequentemente no teatro, e que mediante disfarce estavam
tomando a forma de seus amigos e parentes.
A intermetamorfose, por sua vez, ´e o del´ırio primeiramente descrito por
Courbon & Tusques (1932) no artigo ‘Illusions d’interm´etamorphose et de la
charme’ e consiste, igualmente, em uma s´ındrome de erro de identifica¸c˜
ao. Neste
caso, pacientes confundem as identidades de pessoas familiares ou possuem a
sensa¸c˜
ao v´ıvida de que est˜
ao confundindo estas pessoas com outras pessoas.
Por exemplo, de Pauw & Szulecka (1988) apresentam o caso de um paciente que
afirmava que sua m˜ae se transformava em outra pessoa cada vez que colocava
seus ´oculos.
Os trˆes del´ırios supracitados possuem em comum uma rela¸c˜
ao com a agnosia
facial (ou prosopagnosia) e comumente s˜ao com´orbidas com outros dist´
urbios
neurol´
ogicos e transtornos mentais. O exemplo mais c´elebre e desafiador da
literatura, por´em, nada tem a ver com o reconhecimento de faces alheias. O
del´ırio de Cotard foi primeiramente descrita em uma palestra intitulada ‘Du
d´elire hypochondriaque dans une forme grave de la m´elancolie anxieuse’ (Cotard
1880). Nesta palestra, Cotard descreve uma paciente que nega a existˆencia de
Deus, do Diabo, e de v´arias partes do seu corpo, al´em da necessidade de se
alimentar. Frequentemente pacientes com o del´ırio de Cotard afirmam que est˜
ao
mortos, que n˜
ao existem, ou que n˜
ao possuem sangue ou ´org˜
aos internos. Young
& Leafhead (1996), por exemplo, relatam um caso extremamente v´ıvido de um
paciente escocˆes que, no contexto da sensa¸c˜
ao de estar morto que caracteriza o
del´ırio, foi levado pela m˜ae em viagem `a ´
Africa do Sul. Ele conclui que tinha
3
Optamos pelo uso de ‘del´ırio’, que na literatura psiqui´
atrica lus´
ofona traduz o termo t´
ecnico
delusion da psiquiatria angl´
ofona, pois o portuguˆ
es ‘ilus˜
ao’ n˜
ao constitui uma tradu¸c˜
ao fiel
deste.
3

tomado emprestado o esp´ırito da sua m˜ae para lhe mostrar o inferno, o que para
ele se confirmava pelo calor (1996, 155).
Dificuldades
Diante dos colapsos flagrantes das fun¸c˜
oes cognitivas dos pacientes de certos
del´ırio, n˜
ao ´e de se surpreender que a implausibilidade de se lhes atribuir cren¸cas
irrestritamente tenha sido sugerida, direta ou indiretamente, desde antes do
florescimento da nosologia psiqui´atrica. Como ser´a visto, dificuldades para esta
atribui¸c˜
ao j´
a se encontram na Allgemeine Psychopathologie de Karl Jaspers e
no Lehrbuch der Psychiatrie de Eugen Bleuler. O seguinte conjunto de obje¸c˜
oes
constitui um obst´aculo inignor´
avel `
a concep¸c˜
ao dox´astica dos del´ırios.
Ausˆ
encia de conte´
udo
A primeira obje¸c˜
ao, originalmente formulada por Jaspers (1913/1963) e ela-
borada recentemente por Berrios (1991, 1996) e Sass (1994) nega que del´ırios
sejam estados mentais com conte´
udo. Isso ´e motivado pelo fato de que ao menos
alguns del´ırios parecem obviamente falsas ou incoerentes. Berrios (1996), por
exemplo, diz que quando um paciente que exprime a f´
ormula verbal “Eu estou
morto” ou “Meus ´
org˜
aos internos foram removidos” for questionado quanto ao
real significado dessas asser¸c˜
oes, ele n˜
ao ser´a capaz de coerentemente discuti-las,
nem suas implica¸c˜
oes. ‘Propriamente descritas’, diz Berrios, ‘del´ırios s˜ao atos
de fala vazios que se disfar¸cam como cren¸cas’. ‘Del´ırios s˜ao t˜
ao diferentes de
cren¸cas que deve ser perguntado por que persistimos em cham´
a-las de cren¸cas,
afinal’ (114). ‘O seu assim-chamado conte´
udo n˜
ao refere nem ao mundo, nem
ao eu’ (126). Embora o del´ırio de Cotard seja um ´
obvio candidato para dar
for¸ca a esta obje¸c˜
ao, se encontra na literatura psiqui´
atrica muitos outros exem-
plos formid´aveis. Bayne & Pacherie (2005) citam um paciente que afirmava que
possuia uma usina nuclear dentro do seu corpo (David 1990); e ainda outro que
afirmava estar em Boston e Paris ao mesmo tempo (Weinstein & Kahn 1955).
Ausˆ
encia de evidˆ
encia
Uma obje¸c˜
ao distintamente racionalista consiste em apontar que pacientes apa-
rentemente n˜
ao possuem raz˜
oes ou evidˆencias que sustentem cren¸ca no conte´
udo
do seu del´ırio. Por mais fracas as raz˜
oes ou tendenciosas as evidˆencias que um
sujeito em autoengano possa angariar, por exemplo, elas mesmo assim con-
stituem algum suporte. Em contraste com isso, Campbell (2001, 95) cita o caso
de ‘um paciente que olhou para uma fileira de mesas de m´armore vazias em um
caf´e e se convenceu de que o mundo estava chegando ao fim’. N˜
ao obstante a
defini¸c˜
ao de ‘del´ırio’ do DSM (que eles s˜ao sustentados ‘apesar do que consti-
tui incontrovert´ıvel e ´obvia prova ou evidˆencia do contr´ario’), Campbell aponta
que ´e dif´ıcil compreender como uma experiˆencia de mesas de m´armore poderia
verificar a proposi¸c˜
ao “O mundo est´
a chegando ao fim”. Por outro lado lado, h´
a
uma consider´
avel massa de evidˆencia contra a verdade do conte´
udo do del´ırio
ao qual o sujeito parece completamente insens´ıvel. Sendo assim, se aceitar-
mos haver uma rela¸c˜
ao constitutiva entre cren¸ca e evidˆencia (mesmo no caso
de cren¸ca irracional e evidˆencia impr´
opria), isto ´e, se alguma responsividade `a
4

evidˆencia ´e essencial `
a cren¸ca, ent˜
ao parece que em muitos casos n˜
ao estare-
mos autorizados a afirmar que pacientes creem no conte´
udo dos seus del´ırios.
Isso abre caminho para o conjunto de obje¸c˜
oes relativo ao que Bortolotti (2010)
chama de m´
a integra¸c˜
ao—aquelas que apontam que del´ırios n˜
ao apresentam o
mesmo tipo de rela¸c˜
ao que cren¸cas possuem com outros estados mentais, com o
comportamento, e mesmo com as emo¸c˜
oes do sujeito.
Racioc´ınio te´
orico
Young (1999, 581) nota que os estados mentais que caracterizam pacientes de
del´ırios possuem certo grau de circunscri¸c˜
ao que n˜
ao ´e t´ıpico das cren¸cas. Essa
caracter´ıstica dos del´ırios foi esmiu¸cada e hoje ela fornece trˆes obje¸c˜
oes distintas
`
a concep¸c˜
ao dox´astica. A primeira e mais fundamental destas aponta para o
que Egan (2009) chama circunscri¸c˜
ao inferencial, como assinalam Currie &
Ravenscroft:
Se algu´em afirma que descobriu um tipo de cren¸ca que ´e peculiar
em que n˜
ao h´
a obriga¸c˜
ao de resolver ou mesmo de se preocupar com
inconsistˆencias entre estas cren¸cas e cren¸cas de qualquer outro tipo,
ent˜
ao a resposta correta a ele ´e dizer que ele est´
a falando de outra
coisa que n˜
ao cren¸ca. (2002, 176)
Pacientes com o del´ırio de Capgras, por exemplo, n˜
ao inferem as consequˆencias
que o conte´
udo do del´ırio oferece: a sua vis˜
ao de mundo n˜
ao parece mudar em
consequˆencia da suposta aquisi¸c˜
ao da cren¸ca de que seus cˆ
onjuges foram ab-
duzidos e que a pessoa que eles veem na sua frente ´e um impostor (Davies &
Coltheart 2002). Qualquer que seja esse estado mental, portanto, parece que ele
´
e significativamente encapsulado, deixando de integrar-se `
a rede de cren¸cas do
sujeito. Mas cren¸cas s˜ao o esteio do racioc´ınio te´orico e, embora algu´em possa
atribuir cren¸ca falsa a sujeitos por um sem-n´
umero de raz˜
oes, um estado que

ao possui as conex˜
oes necess´arias com os outros estados mentais do sujeito n˜
ao
parece poder ser propriamente descrito como uma cren¸ca (Cooper 2007). Como
´
e exemplificado por Currie et al., essa perspectiva ´e especialmente adotada por
autores que (tacita ou abertamente) esposam uma concep¸c˜
ao forte da teleolo-
gia da cren¸ca—isto ´e, do fato de que cren¸cas se distinguem de outras atitudes
cognitivas em virtude do seu fim, qual seja, a verdade (Velleman 2000).
Racioc´ınio pr´
atico
A cren¸ca ´e a atitude cognitiva que possui as conex˜
oes mais importantes com a
produ¸c˜
ao de a¸c˜
ao. Em contraste com isso, muitos pacientes de del´ırios falham
em agir do modo esperado de agentes que realmente creem no conte´
udo dos
seus del´ırios (Currie 2000, 174; Sass 1994, 21; Young 1999, 581). Esse fato
parece ser consequˆencia direta da circunscri¸c˜
ao inferencial rec´em mencionada.
Egan (2009) chama essa caracter´ıstica circunscri¸c˜
ao comportamental. Ela foi
j´a notada por Bleuler, que afirmou que seus pacientes com del´ırios ‘raramente
seguem a l´ogica de agir de acordo, como, por exemplo, latir quando proferem
ser um c˜
ao. Ainda que eles recusem admitir a verdade, eles se comportam como
se a express˜ao devesse ser tomada apenas simbolicamente’ (Bleuler 1916/1924,
140). Do mesmo modo, pacientes de Capgras que (at´e onde podemos perceber)
sinceramente afirmam “Esta n˜
ao ´e minha esposa” ou “Minha m˜ae foi substituida
5

por um impostor” normalmente n˜
ao saem, em consequˆencia disso, `a procura
de seus entes queridos desaparecidos, nem chamam a pol´ıcia para procur´
a-los e
para deter o impostor que est´
a vivendo em sua casa.
Ausˆ
encia de rea¸

ao afetiva
Finalmente, pacientes de del´ırios muitas vezes falham em exibir as rea¸c˜
oes afeti-
vas ou emocionais que se esperaria de uma pessoa que crˆe no conte´
udo das suas
asser¸c˜
oes (Sass 1994, 23-24). Ou seja, del´ırios apresentam circunscri¸c˜
ao afetiva:
o que se observa ´e a falha de integra¸c˜
ao entre o estado delir´
oide dos sujeitos e as
suas emo¸c˜
oes. Pacientes de Capgras no mais das vezes permanecem emocional-
mente inertes diante do destino dos seus entes queridos que, de acordo com a
concep¸c˜
ao dox´astica, eles creem ter sido abduzidos. Por que eles n˜
ao exibem as
respostas afetivas apropriadas que as cren¸cas relevantes nos levariam a esperar?
Como observa Bortolotti (2010, 62), ‘embora seja poss´ıvel para um sistema de
cren¸cas que este possua alguma tens˜ao interna, a maioria dos fil´osofos resiste `a
ideia de que sujeitos capazes de possuir cren¸cas podem ter atitudes dissonantes
simultaneamente ativadas e operantes no primeiro plano das suas mentes’. As
´
ultimas trˆes obje¸c˜
oes d˜
ao a entender que os del´ırios n˜
ao possuem o car´
ater
hol´ıstico frequentemente atribuido `
as cren¸cas: eles n˜
ao respeitam a no¸c˜
ao de
um sistema coerente de cren¸cas cujos ajustes com respeito a uma cren¸ca implica
em ajustes a muitas outras (Young 2000, 49). Visto isso, a atribui¸c˜
ao de cren¸cas
no contexto dos del´ırios ser´a apenas admiss´ıvel depois que forem explicadas e
justificadas essas disparidades entre os pap´eis desempenhados pelos del´ırios na
economia congitiva do sujeito e aqueles pap´eis que esperamos que as cren¸cas
desempenhem.
Solu¸

oes
Diante dessas dificuldades, diferentes solu¸c˜
oes tˆem se apresentado.
Estados imaginativos e cren¸
cas de segunda-ordem
Ao oferecer v´arias obje¸c˜
oes ret´
oricas `a glosa do DSM, Coltheart (2007, 1043)
pergunta: ‘Ser´a que del´ırios realmente tˆem de ser cren¸cas? N˜
ao poderiam elas,
ao inv´es disso, ser estados imaginativos <imaginings> erroneamente identifica-
dos como cren¸cas por aquele que imagina?’ Esta ´e exatamente a ideia que Currie
et al. (2000, 2001, 2002) visam a implementar: o abandono da concep¸c˜
ao dox´as-
tica e a caracteriza¸c˜
ao dos del´ırios como estados imaginativos. Currie prop˜
oe
isso no contexto de uma explica¸c˜
ao da esquizofrenia, mas n˜
ao parece haver mo-
tivo ´obvio pelo qual sua proposta n˜
ao poderia ser usada para explicar del´ırios
monotem´
aticos. Mas vale notar que embora o insight de Currie tenha sido algo
inovador na literatura filos´ofica e psiqui´atrica espec´ıfica sobre del´ırios, a ideia

asica—de que a “loucura” envolve tomar erroneamente o imagin´ario por real—
remonta no m´ınimo `a trag´edia grega (Gendler 2007, 249 n. 9). No discurso
psiqui´atrico, como na tradi¸c˜
ao filos´ofica de que provˆem, n˜
ao ´e incomum ver in-
stˆancias disso. O pr´oprio Bleuler, no mesmo par´
agrafo da cita¸c˜
ao pr´evia, diz
que ‘pacientes imaginam-se tranformados em animais e at´e mesmo em coisas’
(1916/1924, 140, grifo meu). Esta concep¸c˜
ao tem sido chamada metacognitiva
(Bayne & Pacherie 2005) em raz˜
ao de esta envolver uma falha de identifica¸c˜
ao
6

de segunda-ordem, j´
a que o sujeito al´em de imaginar, crˆe falsamente que crˆe no
conte´
udo que de fato ´e apenas imaginado.
A concep¸c˜
ao metacognitiva possui a vantagem de aparentemente n˜
ao sofrer
algumas das dificuldades que a concep¸c˜
ao dox´astica suscita. O ponto principal
´
e que a imagina¸c˜
ao desempenha um papel circunscrito na economia cognitiva
daquele que imagina. Estados imaginativos n˜
ao s˜ao estritamente dependentes
de qualquer evidˆencia para a sua gera¸c˜
ao, por exemplo. Posso imaginar que
estou `
a beira do Mar Tirreno, ou fazer-de-conta que sou um ex´ımio int´erprete de
Chopin, sem me valer do tipo de coisa de que precisaria me valer para crer nesses
conte´
udos. Al´em disso, estados imaginativos podem conviver pacificamente com
cren¸cas que os contradigam. Desse modo, posso imaginar que estou em outro
lugar mesmo crendo que estou aqui, fazer-de-conta que sou algo que deveras
creio n˜
ao ser. Importantemente, estados imaginativos n˜
ao possuem o mesmo
efeito sobre a produ¸c˜
ao de a¸c˜
ao que possuem as cren¸cas. Assim, mesmo que eu
possa mexer meus dedos como um pianista e at´e solfejar enquanto fa¸co-de-conta,

ao irei convidar ningu´em para assistir um concerto meu. Finalmente, a por¸c˜
ao
propriamente chamada ‘metacognitiva’ desse modelo parece poder explicar o
comportamento verbal do sujeito: se ele afirma verbalmente que p ´e porque crˆe
que crˆe que p. Posso neste momento imaginar-me morto, mas isso de modo
algum me levaria a afirmar sinceramente que estou morto. Por outro lado, se
esse estado imaginativo for acompanhado da cren¸ca de segunda-ordem relevante,
seria perfeitamente conceb´ıvel que eu passasse a proferir sinceramente que estou
morto.
Cren¸
cas de primeira-ordem
Embora a concep¸c˜
ao metacognitiva possua certos m´eritos, ela deixa diversos
problemas em aberto e, portanto, autores como Bayne & Pacherie (2005) e
Bortolotti (2010) sugerem que tentemos encarar as dificuldades enfrentadas
pela concep¸c˜
ao dox´astica, ao inv´es de descart´
a-la por completo. O princi-
pal embara¸co que assola a concep¸c˜
ao metacognitiva ´e que categorizar del´ırios
como casos de imagina¸c˜
ao prevˆe mais circunscri¸c˜
ao do que se observa em casos
de del´ırio.4 No que diz respeito `a circunscri¸c˜
ao inferencial, pacientes muitas
vezes demonstram consciˆencia e desconforto com respeito `a tens˜ao entre as seus
del´ırios e as outras coisas que eles creem.5 No que diz respeito `a circunscri¸c˜
ao
comportamental, n˜
ao ´e incomum que o comportamento de pacientes seja guiado
pelas seus del´ırios, de uma maneira dissimilar a pessoas que simplesmente imagi-
nam que um estado de coisas ´e o caso. `
As vezes esse comportamento ´e temer´ario,
4
E, discutivelmente, prevˆ
e menos responsividade a evidˆ
encia do que se observa em casos de
del´ırio. Por´
em, ´
e mat´
eria de debate se, ao menos em determinados casos de del´ırio, o sujeito
possui alguma evidˆ
encia com a qual pode chegar `
as conclus˜
oes que chega. A opini˜
ao mais
comum ´
e que em muitos casos h´
a algo que poder´ıamos chamar evidˆ
encia, na forma de uma
experiˆ
encia anˆ
omala (e.g. falha do sistema que ativa a rea¸c˜
ao afetiva a rostos, cf. Ellis et
al. 1997), que fornece material com o qual um sujeito que possui algum d´
eficit funcional
(Landgon & Coltheart 2000) ou que engaja em racioc´ınios tendenciosos mediante o que ´
e
chamado attributional style (Stone & Young 1997) ir´
a concluir, por exemplo, que a pessoa
que est´
a na sua frente ´
e idˆ
entica a sua esposa, mas n˜
ao ´
e ela. Modelos mistos tamb´
em existem
(Davies & Coltheart 2000).
5
Cf. Young (1998, 37): ‘Capgras delusion patients can be ... able to appreciate that they
are making an extraordinary claim. If you ask “what would you think if I told you my wife
had been replaced by an impostor,” you will often get answers to the effect that it would be
unbelievable, absurd, an indication that you had gone mad’.
7

como nos casos nos quais pacientes de Capras se tornam violentos para com seus
entes queridos (Young 2000); casos nos quais pacientes de Cotard abrem m˜ao da
sua alimenta¸c˜
ao e higiene (Young & Leafhead 1996); e casos espantosos como
o de um paciente afetado pelo del´ırio de que possu´ıa duas cabe¸cas, e que foi
hospitalizado com ferimentos de bala ap´os tentar atacar a outra cabe¸ca que,
segundo o paciente, pertencia ao ginecologista da sua esposa (Ames 1984).

ao menos grave ´e que, como apontam Bayne & Pacherie, o tratamento de
Currie parece elidir o cerne no problema do qual estamos tratando: o fato de
que h´
a ‘pacientes a respeito dos quais h´
a raz˜
oes para pensar que creem que p
e raz˜
oes para pensar que n˜
ao creem que p (ou at´e mesmo que creem que ¬p)’
(2005, 173-4). Este problema n˜
ao parece ser resolvido ao propor que pacientes
apenas imaginam o conte´
udo dos seus del´ırios. Mas h´
a esperan¸ca, segundo esses
autores, de resolvˆe-lo mediante uma revis˜
ao da concep¸c˜
ao corrente de cren¸ca.
Em primeiro lugar, Bayne & Pacherie recha¸cam o uso da restri¸c˜
ao de racional-
idade que permeia a concep¸c˜
ao de cren¸ca de Currie e que pretende justificar a
sua procura por outras formas de caracterizar os del´ırios.6 Segundo eles, Currie
toma o ideal pelo real, tomando uma restri¸c˜
ao de car´
ater normativo por consti-
tutivo da cren¸ca. Ou seja, Currie confunde o que a cren¸ca deve ser e o que ela
´
e. Cren¸cas s˜
ao idealmente orientadas `
a verdade (Velleman 2000) e nossa rede
de cren¸cas ´e idealmente consistente (Davidson 1973), mas ´e empiricamente con-
test´avel que essas reivindica¸c˜
oes sejam constitutivas de todas as nossas cren¸cas
(Cherniak 1986) Em segundo lugar, tanto Bayne & Pacherie quanto Bortolotti
(2010) prop˜
oem uma teoria da cren¸ca que visa salientar que as atitudes cog-
nitivas de pacientes de del´ırios psiqui´
atricos s˜ao cont´ınuas com nossas cren¸cas
ordin´
arias, isto ´e, que n˜
ao h´
a diferen¸ca categorial entre os estados mentais irra-
cionais que se observa naqueles fenˆomenos, e os estados mentais racionais que
comp˜oem o restante da nossa economia cognitiva.
Entre cren¸
ca e imagina¸

ao
Se classificar del´ırios como estados dox´asticos ´e problem´
atico, e se classific´a-los
como estados imaginativos tamb´em ´e, ent˜
ao, sugere Egan (2009), seria interes-
sante poder dizer que a atitude que caracteriza os del´ırios ´e algo entre cren¸ca
e imagina¸c˜
ao, isto ´e, que o estado mental que estamos procurando desempenha
um papel que ´e em certo aspecto como aquele de um estado dox´astico, e em
certo aspecto como aquele de um estado imaginativo. A solu¸c˜
ao consistiria,
portanto, em abandonar a posi¸c˜
ao “tudo ou nada” adotada por aqueles que dis-
putam entre uma ou outra das solu¸c˜
oes supracitadas e admitir estados mentais
intermedi´
arios, isto ´e, que possuam algumas das caracter´ısticas da cren¸ca, e
algumas das caracter´ısticas da imagina¸c˜
ao. Egan sustenta que n˜
ao temos boas
raz˜
oes para ignorar a possibilidade de estados mentais que possuam, por exem-
plo, a origem em comum com estados imaginativos e o papel motivacional em
comum com estados dox´asticos; ou um papel motivacional t´ıpico da cren¸ca aqui,
e um papel motivacional t´ıpico da imagina¸c˜
ao ali; ou a origem em comum com
a cren¸ca e a pol´ıtica de atualiza¸c˜
ao em comum com a imagina¸c˜
ao; etc.
No que diz respeito `a orienta¸c˜
ao do comportamento, podemos ter cren¸cas
inconsistentes entre si e ora agir com base em uma, ora agir com base em outra,
como apontou Lewis (1982).7 Al´em disso, muitas instˆancias de estados imagi-
6
Cf. cita¸c˜
ao de Currie & Ravenscroft (2002) na p´
agina 5 deste projeto.
7
O exemplo de Lewis era autobiogr´
afico: ‘I used to think that Nassau Street ran roughly
8

nativos parecem desempenhar um papel na produ¸c˜
ao de a¸c˜
ao e rea¸c˜
ao em certos
contextos, como quando em um jogo de faz-de-conta uma crian¸ca move o seu
bra¸co em frente ao seu nariz como uma tromba (Velleman 2000), ou quando
se assusta com a presen¸ca de um “monstro”. Neste caso, estados dox´asticos e
imaginativos operam conjuntamente: n˜
ao ´e plaus´ıvel supor que os estados ima-
ginativos dessa crian¸ca em nada contribuam para a a¸c˜
ao e rea¸c˜
ao descritas. Por
sua vez, no que diz respeito `
as rela¸c˜
oes inferenciais entre estados imaginativos e
entre estados imaginativos e dox´asticos, tamb´em h´
a evidˆencia de que estas es-
capam, ao menos em determinados casos, `a acusa¸c˜
ao de circunscri¸c˜
ao. Primeiro,

a casos onde imaginar que p e que, se p ent˜
ao q, leva o sujeito a imaginar que
q. Segundo, como aponta Walton (1993), h´
a casos que instanciam princ´ıpios
da forma ‘se p ´e o caso, ent˜
ao fa¸ca de conta que q’ (e.g. se h´
a um bra¸co na
frente do meu rosto, fa¸ca de conta que ´e uma tromba). As inferˆencias ocorrem
tamb´em entre estados dox´asticos e imaginativos: se estamos fazendo de conta
que somos elefantes e eu digo a vocˆe que estou cansado de ficar com a tromba
levantada vocˆe plausivelmente ir´
a formar a cren¸ca de que eu estou cansado de
levantar meu bra¸co. A moral que devemos extrair disso, sugere Egan, ´e que os
pap´eis desempenhados por esses estados s˜ao muito mais complicados e menos
unificados do que pens´
avamos, e a aten¸c˜
ao a isso torna plaus´ıvel a ideia de que
haja uma gama de casos que vai desde estados imaginativos paradigm´aticos
at´e estados dox´asticos paradigm´aticos, com estados intermedi´
arios dif´ıceis de
classificar entre eles.
Entre cren¸
ca e descren¸
ca
Schwitzgebel (no prelo) sugere que casos de del´ırio podem ser an´alogos dox´asti-
cos do que Lewis (1980) chamou de mad pain, isto ´e, casos nos quais uma parte
significativa do papel funcional da cren¸ca est´
a ausente de modo que o sujeito
est´
a em um estado intermedi´
ario (in-between, cf. Schwitzgebel 2001) relativa-
mente ao qual n˜
ao podemos corretamente dizer nem que ele determinadamente
crˆe no conte´
udo do del´ırio nem que ele determinadamente deixa de crer em tal
conte´
udo. Schwitzgebel aponta que contrariamente `
a posse de dor, por´em, n˜
ao
´
e suficiente para crer que p que o sujeito esteja em ou porte um estado que,
tipicamente, desempenha certo papel funcional—esse estado tem de realmente
desempenhar o seu papel funcional para o sujeito. A sua vers˜ao de funcional-
ismo com respeito `a cren¸ca, portanto, p˜
oe todo o peso sobre os efeitos do estado
em quest˜
ao, sobre aquilo que Schwitzgebel prefere chamar perfil disposicional do
sujeito (cf. 2002). Ou seja, as causas do surgimento das cren¸cas s˜ao irrelevantes,
elas podem surgir do modo que for, inclusive (concebivelmente) a partir de um
trauma neurol´
ogico. Mas para serem cren¸cas elas n˜
ao podem ter qualquer efeito:
elas devem ter, grosso modo, as manifesta¸c˜
oes comportamentais estereot´ıpicas
de um portador de cren¸cas, como a disposi¸c˜
ao de agir e reagir, se comportar,
sentir, e raciocinar de modo condizente.
Diferentemente de Egan, que prop˜
oe que demos espa¸co na nossa taxono-
mia dos estados mentais para estados que desempenham fun¸c˜
oes de diferentes
estados mentais canˆonicos, Schwitzgebel n˜
ao prop˜
oe a “cria¸c˜
ao” de novos esta-
dos mentais, apenas um refinamento da nossa concep¸c˜
ao inflex´ıvel de cren¸ca de
modo que admita a atribui¸c˜
ao de cren¸cas n˜
ao s´o no contexto de del´ırios, mas na
east-west; that the railroad nearby ran roughly north-south; and that the two were roughly
parallel’ (1982, 436).
9

mir´ıade de casos lim´ıtrofes como vieses cognitivos, autoengano etc. Se n˜
ao h´
a
uma linha que divida precisamente um caso N (que determinadamente ´e um caso
de cren¸ca) de um caso N+1 (que determinadamente n˜
ao ´e um caso de cren¸ca),
ent˜
ao parece que “crˆe que p” ´e um predicado vago que admite casos vagos—casos
que Schwitzgebel denomina intermedi´
arios. N˜
ao s´o falhas flagrantes da racional-
idade nos fornecem casos assim. Price (1960/1969, 302-14) discute diversos casos
do que chama half-belief, nos quais uma pessoa sistematicamente pode se sentir
plenamente comprometida com a verdade de uma proposi¸c˜
ao p e agir de acordo
em uma determinada circunstˆ
ancia, e se sentir e agir contrariamente em outra.
Seu exemplo mais famoso talvez seja o da pessoa que aos domingos porta to-
das as marcas subjetivas e objetivas de um crist˜ao, mas que durante os outros
dias da semana n˜
ao porta nenhuma destas. O que Schwitzgebel sugere ´e que
em casos intermedi´
arios de predicados vagos canˆ
onicos como ‘alto’, a adequa¸c˜
ao
da atribui¸c˜
ao do predicado varia contextualmente, e que muitas vezes a melhor
abordagem ´e recusar simplesmente atribuir ou deixar de atribuir o predicado
mas, ao inv´es disso, especific´
a-lo em maior detalhe, e.g. “ele tem um metro e
setenta e nove de altura”.8 Schwitzgebel sugere que adotemos a mesma postura
para com os casos de cren¸cas de dif´ıcil atribui¸c˜
ao que temos discutido. Nesses
casos, as atribui¸c˜
oes mais cuidadosas se abster˜ao de atribuir ou negar a cren¸ca
irrestritamente.
Conclus˜
ao e objetivos
O debate apresentado neste projeto provis´
orio ´e recente e est´
a em plena propa-
ga¸c˜
ao. Meu objetivo ´e, sem mais, adentrar na discuss˜
ao e contribuir para o
desenvolvimento desta. O trabalho que pretendo empreender consiste em uma
investiga¸c˜
ao interdisciplinar da natureza dos fenˆomenos descritos. Ele ´e interdis-
ciplinar na medida em que se vale tanto do trabalho de fil´osofos (principalmente
no que toca a atribui¸c˜
ao de cren¸cas e os requisitos da racionalidade) quanto do
trabalho de psic´ologos e psiquiatras (principalmente no que toca a etiologia e a
manifesta¸c˜
ao comportamental dos fenˆomenos discutidos).
Bibliografia b´
asica
Bortolotti (2010) Schwitzgebel (no prelo) Radden (2010) Berrios (1991) Sass (1994) Bayne &
Pacherie (2005) Campbell (2001) Young (1999) Currie & Ravenscroft (2002) Currie & Jureidini
(2001) Currie (2000) Egan (2009) Davies & Coltheart (2000) Davies & Coltheart (2002) Young
(2000) Coltheart (2007) Schwitzgebel (2001) Schwitzgebel (2002) Bayne & Fern´
andez (2009)
Coltheart & Davies (2000)
Outras obras citadas
Dokic (1996) Davidson (1974) McDowell 1985 Dennett 1987 Ramsey (1931/2001) American
Psychiatric Association (2000) Capgras & Reboul-Lachaux (1923) Schreber (1903/2000) Cour-
bon & Fail (1927) Courbon & Tusques (1932) De Pauw & Szulecka (1988) Cotard (1880) Young
& Leafhead (1996) Jaspers (1913/1963) Berrios (1996) David (1990) Weinstein & Kahn (1955)
Cooper (2007) Bleuler (1916/1924) Gendler (2007) Ellis, Young, Quayle & de Pauw (1997)
Langdon & Coltheart (2000) Stone & Young (1997) Young (1998) Ames (1984) Davidson
8
Maiores especifica¸c˜
oes podem ser necess´
arias. Se o contexto geogr´
afico da atribui¸c˜
ao de “alto”

ao estiver impl´ıcito, por exemplo, teremos que especific´
a-lo j´
a que 1.79m pode ser considerado
alto em um determinado lugar e n˜
ao em outro.
10

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