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Entrevista O Artesão das Notas

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O artesao das notas, Jorge Luis Gonçalves da Silva
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  • Name: Joao Paulo
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C M Y K
A - 36
36 * Brasilia, quinta-feira, 16 de marco de 2006 * CORREIO BRAZILIENSE
CIDADES
SONHO
feito de bambu
Cego desde menino, no interior de Goias, morador do Gama virou musico, fabrica flautas de taboca e quer
viver da propria arte. Alem de dar aulas, ele pretende vender os instrumentos que confecciona
Carlos Vieira/CB
MARCELO ABREU
tes", diz. E ele esta empolgado com a
"A CEGUEIRA ME FEZ DESENVOLVER A SENSIBILIDADE. SOU CAPAZ DE `VER'
DA EQUIPE DO CORREIO
possibilidade de viver da arte que nasce
A SINCERIDADE DE UMA PESSOA APENAS PELA VOZ"
do bambu.
Aos 7 anos de idade, uma brinca-
E atesta: "Existem flautas de bambu,
deira tirou o brilho dos olhos do
Jorge Luis Goncalves da Silva, musico e artesao
iguais a essas, como esses detalhes que
menino. Por chamar um homem
criei, nunca `vi'", comenta, Jorge Luis por
de barbeiro - o moco era conhe-
cionado, Jorge Luis Goncalves da Silva,
na criacao dos nossos filhos", elogia a
calos lhe tiraram a alegria. O bambu vi-
serem exclusivas.
cido na cidade como mau motorista, ti-
Acredita que o mundo pode ser
hoje um homem de 38 anos.
mulher, Jacinta Goncalves, de 36 anos.
rou um belo instrumento de sopro. E o
nha derrubado muros e, por isso, foi ape-
melhor. Nao guarda magoa do homem
Aos 10 anos de idade, com cegueira
som que sai dele e limpo, suave.
lidado como tal -, o menino levou do ra-
que lhe atirou a pedra no olho e mudou
total e irreversivel, o menino se deparou
Novos rumos
Em dois anos, Jorge ja fabricou, na
paz, entao com 21 anos, "o barbeiro",
sua vida para sempre. "Ele mora na mes-
com a depressao. Ele nem sabia que a
Ha oito anos, aconteceu uma reviravolta
sua casa, mais de 100 flautas. Cada uma
uma pedrada no olho esquerdo. Naquela
ma cidade, mas nunca teve coragem de
doenca tinha esse nome. Tampouco a fa-
na vida de Jorge. Uma depressao o levou
de uma forma, com um detalhe diferen-
hora, perdeu a visao. Ainda tentou vir pa-
falar comigo. Perdoei ele do fundo do
milia. "Era uma tristeza profunda. Perdi a
a deixar o emprego.
A familia, agora
te. E toda vez que uma fica pronta - o que
ra Brasilia, mas a viagem, da distante Sao
meu coracao." Se pudesse voltar a enxer-
graca pela vida. So chorava. O meu so-
mulher e tres filhos, e a musica salvaram
leva entre quatro e cinco dias - a familia
Domingos, em Goias, ate aqui, demorou
gar por um minuto, o homem que con-
nho era ir para a escola, mas cego nao
o rapaz. Para ocupar-se, ajudava nas ta-
comemora. Egla, de 10 anos, a filha mais
sete dias, pois a rodovia que ligava a cida-
fecciona flautas de bambu e produz mu-
poderia mais. E eu ja sabia ler e escrever.
refas de casa e nos deveres escolares das
velha, acha o pai sensacional. E seu ido-
de dele ao DF havia muitos atoleiros.
sica para alimentar a alma teria apenas
Tinha aprendido sozinho."
criancas. E tocava violao e flauta. "A mu-
lo: "Ele e uma pessoa muito inteligente."
Era 1974.
um desejo: "Ver o rosto da minha mulher
A familia do menino resolveu man-
sica me acalma e me fascina" diz.
Haylla, 8, e sua companheira nas andan-
No Hospital de Base, nao havia mais o
e dos meus tres filhos". Em seguida,
da-lo para Brasilia. Aqui, aos 13 anos,
Um dia, Jorge teve uma ideia. Por que
cas. Leva-o para passear e aos compro-
que fazer. Uma infeccao, que tempos de-
emenda: "Mas eu conheco todos eles pe-
ele foi matriculado numa escola espe-
nao fazer um som mais suave, mais ave-
missos. Michael, 5, o cacula, adora ouvir
pois atrofiaria todo o nervo otico, impe-
lo tato e pela voz. Sei como e cada um
cial para cegos. Aprendeu braile. Sur-
ludado que aquele da flauta doce? Foi ate
a musica que sai daquele instrumento
diu qualquer procedimento. O menino
deles. A cegueira me fez desenvolver a
preendeu-se com tanta descoberta. Lo-
sua cidade natal, Sao Domingos, e voltou
que ele tambem ajudou a fazer. Jacinta,
perdera a visao do olho esquerdo. Aos 7
sensibilidade. Sou capaz de `ver' a since-
go, foi matriculado numa escola de en-
ao tempo de infancia. Lembrou-se de
que arruma a casa, cozinha e cuida de
anos, ele chorou pela primeira vez. E foi
ridade de uma pessoa apenas pela voz".
sino regular. Aprendia as coisas rapida-
que tocava, quando menino, em flauta
todos, e so alegria: "Tudo que ele faz e
um choro de dor. Um lamento profundo.
Naquela casa humilde no Gama, um
mente. O menino crescia. Para ameni-
feita de bambu. Tudo era muito artesa-
bem feito. No violao, nao tem melhor".
Mas o pior ainda estava por vir. Aos
homem cego encontrou na musica o ali-
zar a solidao, interessou-se por musica.
nal, mas funcionava. Lembrou-se ate do
poucos, a visao do olho direito tambem
vio para o sofrimento. Foi ao fundo do
Aprendeu, sozinho, a tocar violao. De-
timbre, que havia ficado na sua memoria. Obra patenteada
comecou a ser afetada. A cada dia o me-
poco. Quis desistir da vida ainda meni-
pois, flauta. Os dias ficaram menos
Na fazenda de um tio nas redonde- E Jorge toca. Deixa a emocao invadir sua
nino enxergava menos. Aos 10 anos, veio
no. Para curar-se da depressao, adulto,
sombrios. A solidao, menos pesada.
zas de Sao Domingos, Jorge foi atras de mente. Toca Luar do Sertao. Embala os fi-
a cegueira de vez. A luz nunca mais en-
inventou um instrumento. De bambu,
Mas ele precisava sobreviver. As aulas
bambu nativo (conhecido na regiao co- lhos com musicas sacras. Em meios seus
trou pela sua retina. Uma pedrada, de
num sopro, nasceu a musica. Ela enche
de violao que dava nao lhe garantiriam a
mo taboca). Trouxe, com ajuda da mu- amigos e visinhos no Gama onde eles resi-
um homem impaciente e despreparado
os pulmoes. Atica o coracao. Emociona
sobrevivencia. Estudou. Prestou concur-
lher e dos filhos, varios bambus. Em ca- dem, a poesia e a musica se fizeram hospedes.
para aceitar brincadeiras, interrompeu e
quem ouve. Jorge pode ate nao enxergar,
so para atendente de telecomunicacao.
sa, num verdadeiro trabalho comunita- Ate a vizinhanca gosta da musica que vem
alterou para sempre todos os sonhos do
mas sua vida, como a fe que ele professa,
Um dia, com, emprego fixo, casou-se. Te-
rio, cerrou, lixou, cortou, envernizou, daquela casa. "E isso que me cura da depre-
menino. Ele chorou pela segunda vez. E
foi invadida por um luz que esta alem da
ve tres filhos com a namorada que co-
decorou-o com uma massa especial, fa- ssao e dos momentos de tristeza", reconhece.
novamente foi um choro de dor e desa-
retina. Nem a perversa escuridao foi ca-
nheceu nas aulas de violao. Ela era aluna
zendo arte, e afinou-o no ouvido. Nem
A ideia agora e, para ajudar no susten-
lento. "A ultima coisa que lembro ter en-
paz de alterar o rumo dessa historia.
dele. Estao juntos ha 12 anos. "Ele e o or-
as maos sangrando em decorrencia dos to da familia, vender as flautas. "As pes-
xergado foi o rio da minha cidade, onde
gulho da nossa familia. Me ajuda muito
soas gostam, acham originais e diferen-
brincava. Isso ficou na minha memoria.
Quando quero me lembrar da infancia, e
Obs.: E os seus instrumentos ja sao testados e aprovados por profissionais, pela Escola de Musica de Brasilia.
K
Y
M
C
A - 36

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