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Carta de Richard Simonetti Superinteressante sobre Chico Xavier%u200F
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Carta de Richard Simonetti à Superinteressante sobre Chico Xavier
Senhor Sérgio Gwercman
Diretor de redação da revista Super Interessante
Sou assinante dessa revista há muitos anos. Sempre a encarei como publicação séria, fonte
de informações a oferecer subsídios para meu trabalho como escritor espírita, autor de 49 livros
publicados.
Essa concepção caiu por terra ao ler, na edição de abril, infeliz reportagem sobre Francisco
Cândido Xavier, pretensiosa e tendenciosa, objetivando, nas entrelinhas, denegrir e desvalorizar o
trabalho do grande médium.
Isso pode ser constatado já na seção “Escuta”, com sua assinatura, em que V.S. pretende
distinguir respeito de reverência, como se reverência não fosse o respeito profundo por alguém, em face
de seus méritos.
Podemos e devemos reverenciar Chico Xavier, não por adesão de uma fé cega, mas pela
constatação racional, lúcida, lógica, de que estamos diante de uma personalidade ímpar, que fez mais
pelo bem da Humanidade do que mil edições de Superinteressante, uma revista situada como defensora
do bom jornalismo, mas que fez aqui o que de pior existe na mídia – a apreciação superficial e
tendenciosa a respeito de alguém ou de uma notícia, com todo respeito, como pretende seu editorial,
como se fosse possível conciliar o certo com o errado, o boato com a realidade, o achincalhe com o
respeito.
Para reflexão da repórter Gisela Blanco e redatores dessa revista que em momento algum
aprofundaram o assunto e nem mesmo se deram ao trabalho de ler os principais livros psicografados pelo
médium, sempre com abordagem superficial, pretendendo “explicar” o fenômeno Chico Xavier, aqui vão
alguns aspectos para sua reflexão e – quem sabe? – um cuidado maior em futuras reportagens.
De onde a repórter tirou essa bobagem de que “toda essa história começou com as cartas
dos mortos?”

Se as eliminarmos em nada se perderá a grandeza de Chico Xavier. A história começa bem antes disso,
com a publicação, em 1932, do livro Parnaso de Além-Túmulo, quando o médium tinha apenas 22 anos.
A reportagem diz: “Ele dizia que não escolhia os espíritos a quem atenderia, só via fantasmas
e ouvia vozes. Mas parecia ser o escolhido por celebridades do céu. Cruz e Souza, Olavo Bilac, Augusto
dos Anjos e Castro Alves lhe ditaram versos e prosa.”

Afirmativa maliciosa, sugerindo o pastiche, a técnica de copiar estilo literário. O repórter não
se deu ao trabalho de observar que no próprio Parnaso há, nas edições atuais, 58 poetas desencarnados,
menos conhecidos e até desconhecidos, como José Duro, Alfredo Nora, Alma Eros, Amadeu, B.Lopes,
Batista Cepelos, Luiz Pistarini, Valado Rosa… Poetas do Brasil e de Portugal que se identificam pelo seu
estilo, em poesias personalíssimas enriquecidas por valores de espiritualidade.
Não sabe ou preferiu omitir a repórter que Chico psicografou poesias de centenas de poetas
desencarnados, ao longo de seus 75 anos de apostolado, na maior parte poetas provincianos, conhecidos
apenas nas cidades onde residiam no interior do Brasil. Pesquisadores constatam que esses poemas não
são “razoavelmente fiéis ao estilo dos autores”. São totalmente fiéis.
Não tem a mínima noção de que a técnica do pastiche, a imitação de estilo literário, é
extremamente difícil, quase impossível. Pastichadores conseguem imitar uma página, uma poesia de
alguém, jamais toda uma obra ou as obras de centenas de autores.
Afirma que Chico foi autodidata e leitor voraz durante toda a vida, sempre insinuando o
pastiche. Leitor voraz? Passava os dias lendo? Só quem não conhece sua biografia pode falar uma
bobagem dessa natureza, já que Chico passava a maior parte de seu tempo atendendo pessoas,
psicografando, participando de reuniões e atendendo à atividade profissional. Não conheço um único
documentário, uma única foto mostrando Chico lendo “vorazmente”. Ah! Sim! Para a repórter Chico
certamente escondia isso.
Fala também que Chico teria 500 livros em sua biblioteca e que “a lista inclui volumes de
autores cujo espírito o teria procurado para escrever suas obras póstumas, como Castro Alves e
Humberto de Campos”.

E as centenas de poetas e escritores que se manifestaram por seu intermédio. Chico tinha livros deles? E
de poetas que sequer publicaram livros?
Quanto a Humberto de Campos, cuja família tentou receber na justiça os direitos autorais
pelas obras psicografadas por Chico, o que seria ótimo acontecer, o reconhecimento oficial da
manifestação dos Espíritos, esqueceu-se a repórter de informar que Agripino Grieco, o mais famoso
crítico literário de seu tempo, recebeu uma mensagem do escritor, de quem era amigo. Reconheceu que
o estilo era autenticamente de Humberto de Campos, mas que o fato para ele não tinha explicação, já
que, como católico praticante, não admitia a possibilidade de manifestação dos espíritos.
Esqueceu ou ignora que Chico, médium psicógrafo mecânico, recebia duas mensagens
simultaneamente, com ambas as mãos sendo usadas por dois espíritos. DesafioSuperinteressante a
encontrar um prestidigitador capaz de fazer algo semelhante.
Uma pérola de ignorância jornalística está na referência sobre materialização de Espíritos:

seria necessário produzir um total de energia duas vezes maior do que é hoje produzido pela
hidroelétrica de Itaipu por ano, segundo os cálculos feitos por especialistas exibidos por reportagens
sobre Chico nos anos 70.”
Seria superinteressante a repórter ler sobre as pesquisas de Alfred Russel
Wallace, Oliver Joseph Lodge, Lord Rayleigh, William James, William Crookes, Ernesto Bozzano, Cesare
Lombroso, Alexej Akzacof e muitos outros cientistas respeitáveis que estudaram o fenômeno da
materialização e o admitiram. Leia, também, sobre quem eram esses cientistas, para constatar que não
agiam levianamente como está na revista.
A repórter reporta-se às reuniões mediúnicas das quais Chico participava como shows que o
tornaram famoso e destila seu veneno. Cita o sobrinho de Chico que, dizendo-se médium, confessou que
era tudo de sua cabeça, o mesmo acontecendo com o tio. Por que passar essa informação falsa, se o
próprio sobrinho de Chico, notoriamente perturbado e alcoólatra, pediu desculpas pela sua mentira? Joga
penas ao vento e espera que o leitor as recolha? Omitiu também a informação de que ele confessou que
pessoas interessadas em denegrir o médium pagaram-lhe pela acusação.
Eram frequentes nas reuniões a ocorrência de fenômenos como a aspersão de perfumes no
ambiente, algo que, deveria saber a repórter, costuma ocorrer com os médiuns de efeitos físicos. No
entanto, recusando-se a colher informações mais detalhadas sobre o assunto, limitou-se a dizer que em
1971 um repórter da revista Realidade, José Hamilton Ribeiro, denunciou que viu um dos assessores de
Chico Xavier levantar o paletó discretamente e borrifar perfume no ar. Sugere que havia mistificação,
aliás, uma tônica na reportagem. Por que não foram consultadas outras pessoas, inclusive centenas que
tiveram seus lenços inexplicavelmente encharcados de perfume ou a água que levavam para magnetizar,
a exalar também um olor suave e desconhecido que perdurava por muitos dias?
Na questão das cartas, milhares e milhares de cartas de Espíritos que se comunicavam com
os familiares, sugere a repórter que assessores de Chico conversavam com as pessoas, anotando
informações para dar-lhes autenticidade. Lamentável mentira. E ainda que isso acontecesse, Chico
precisaria ser um prodígio para ler rapidamente as informações e inseri-las no contexto de cada
mensagem, de cada espírito, mistificando sempre.
E as mensagens dirigidas a pessoas ausentes? E os recados aos presentes? Não eram só
mensagens. Eram incontáveis recados. A pessoa aproximava-se de Chico e ele, sem conhecer nada de
sua vida, transmitia recados de familiares desencarnados, na condição de um ser interexistente, que vivia
simultaneamente a vida física e a espiritual, em contato permanente com os Espíritos.
Lembro o caso de um homem inconformado com a morte de um filho. Ia toda noite deitar-se
na sepultura do rapaz, querendo “ficar com ele”. Não contava a ninguém, nem mesmo aos familiares. Em
Uberaba recebeu mensagem do filho pedindo-lhe que não fizesse isso, porquanto ele não estava lá.
Durante muitos anos Chico psicografou receituário mediúnico de homeopatia. Perto de 700
receitas numa noite. Ficava horas psicografando. E os medicamentos correspondiam à natureza do mal
dos pacientes, sem que o médium deles tivesse o mínimo conhecimento. Na década de 70 tive uma
uveíte no olho esquerdo. Compareci à reunião de receituário. Escrevi meu nome e idade numa folha de
papel. Não conversei com ninguém. Após a reunião recebi a indicação de dois medicamentos. Tornando
a Bauru, onde resido, verifiquei num livro de homeopatia que o dois medicamentos diziam respeito ao
meu mal. Curaram-me.
Concebesse a repórter que, como dizia Shakespeare, há mais coisas entre a Terra e o Céu
do que concebe nossa vã sabedoria,
e não se atreveria a escrever sobre assuntos que desconhece, com
o atrevimento da ignorância.
Outras “pérolas” da reportagem:
Oferece “explicações” lamentáveis para o fenômeno Chico Xavier.
Psicose, confundindo mediunidade com anormalidade.
Epilepsia, descarga elétrica que “poderia causar alheamento, sensação de ausência,
automatismo psicomotor”,
segundo a opinião de um médico. Descreve algo inerente ao processo
mediúnico, que não tem nada a ver com desajuste mental, ou imagina-se que o contato com o Espírito
comunicante não imponha uma alteração nos circuitos cerebrais, até para que ocorra a manifestação? E
porventura o médico consultado sabe de algum paciente que produza textos mediúnicos durante a crise
epilética?
Criptomnésia, memórias falsas, lembranças escondidas no subconsciente do médium, ao
ouvir informações sobre o morto. Inconscientemente ele “arranjaria” essas informações para forjar a
“manifestação”.
Telepatia. Aqui o médium captaria informações da cabeça dos consulentes e as fantasiaria
como manifestação do morto. Como dizia Carlos Imabassahy, grande escritor espírita, inconsciente
velhaco, porquanto sempre sugere que é um morto quem se manifesta, não ele próprio.
Informa a repórter que “acuado pelas críticas na Pedro Leopoldo de 15 mil habitantes, Chico
resolveu fazer as malas e partir para Uberaba, um polo do Espiritismo onde contaria com um apoio de
amigos”.

Mentira. Ele deixou Pedro Leopoldo, onde tinha muitos amigos, não por estar “acuado”, mas
simplesmente seguindo uma orientação do Mundo Espiritual, em face de tarefas que desenvolveria em
Uberaba que, então sim, com sua presença transformou-se em “polo do Espiritismo”.
Na famoso pinga-fogo a que Chico compareceu, em 1971, na TV Tupi, um marco na história
das entrevistas televisivas, com uma quase totalidade de audiência, diz a repórter que Chico foi
bombardeado por perguntas. Mas se safou.” Bombardeado? Safou-se? O que foi essa entrevista, um

libelo acusatório contra um mistificador? Se a repórter se desse ao trabalho de ver a entrevista toda, o
que lhe faria muito bem, verificaria que o clima foi de cordialidade, de elevada espiritualidade, e que em
nenhum momento os entrevistadores “bombardearam” Chico. E em nenhum momento ele deixou de
responder as perguntas com a sobriedade e lisura de quem não está ali para safar-se, mas para ensinar
algo de Espiritismo.
Falando da indústria (?) Chico Xavier, há um box sobre “Dieta do Chico Xavier”, que jamais
seria veiculada por Chico. Usaram seu nome. Por que incluí-la nas inverdades sobre o médium,
simplesmente para denegrir sua imagem, aqui sugerindo que seria ingênuo a ponto de conceber
semelhante bobagem? Se eu divulgar via internet que Superinteressante recomenda o uso de cocô de
galinha para deter a queda de cabelos, seria razoável que alguma revista concorrente citasse essa tolice,
mencionando a suposta autoria, sem verificação prévia?
Falando dos 200 livros biográficos sobre Chico Xavier, a repórter escreve: “Tem até um de
piadas, Rindo e Refletindo com Chico Xavier”.
Certamente não leu o livro, porquanto não conhece nem o
autor, eu mesmo, Richard Simonetti, nem sabe que não se trata de um livro de piadas, mas um livro de
reflexão em torno de ensinamentos bem-humorados do médium.
Não fosse algo tão lamentável, tão séria essa agressão contra a figura respeitável e venerável
de Chico Xavier, eu diria que essa reportagem, ela sim, senhor redator, foi uma piada de péssimo gosto!
Doravante porei “de molho” as informações dessa revista, sem o crédito que lhe concedia.
A repórter Gisela Branco esteve em Pedro Leopoldo e Uberaba com o propósito de situar
Chico Xavier como figura mitológica. É uma pena! Não teve a sensibilidade nem o discernimento para
descobrir o médium Chico Xavier, cuja contribuição em favor do progresso e bem estar dos homens foi
tão marcante que, a exemplo do que disse Einstein sobre Mahatma Gandhi, “as gerações futuras terão
dificuldade para conceber que um homem assim, em carne e osso, transitou pela Terra
.”
E deveria saber que não vemos Chico Xavier como um mártir, conforme sugere. Não morreu
pelo Espiritismo. Viveu como espírita. E se algo se aproxima de um martírio em seu apostolado,
certamente foi o de suportar tolices e aleivosidades como aquelas presentes na citada reportagem.
Finalizando, um ditado Zen para reflexão dos redatores da Super:
O dedo aponta a lua.
O sábio olha a lua.
O tolo olha o dedo.

Richard Simonetti
Bauru, 3 de abril de 2010.


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