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ROBERTO CAMPOS, UMA VIDA RUMO A LIBERDADE E A SOLIDÃO

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Este artigo foi feito através dos estudos feitos junto ao Grupo de Pesquisas sobre nação e nacionalismo, que tem como coordenadora a Profª. Drª. Janete Abrão, do curso de História da PUCRS. Fez-se uma análise sobre a as concepções teóricas e teses de Roberto Campos presentes em seus livros, além de outra bibliografia de apoio sobre o autor e sobre o contexto histórico da época que o mesmo atuou politicamente. O intuito do artigo é mostrar as diferentes visões de Campos sobre a nação e o nacionalismo, além de sua teoria acerca do desenvolvimento para o Brasil, principalmente no que tange às décadas de 1960 até 1980.
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1
ROBERTO CAMPOS, UMA VIDA RUMO A LIBERDADE E A
SOLIDƒO
Caroline Rippe de Mello
Licenciada e Bacharel em História (PUCRS)
Acadêmica de Museologia (UFRGS)
Email: carolinerippe@hotmail.com
RESUMO: Este artigo foi feito através dos estudos feitos junto ao Grupo de Pesquisas sobre nação e
nacionalismo, que tem como coordenadora a Profª. Drª. Janete Abrão, do curso de História da PUCRS.
Fez-se uma análise sobre a as concepções teóricas e teses de Roberto Campos presentes em seus livros,
além de outra bibliografia de apoio sobre o autor e sobre o contexto histórico da época que o mesmo
atuou politicamente. O intuito do artigo é mostrar as diferentes visões de Campos sobre a nação e o
nacionalismo, além de sua teoria acerca do desenvolvimento para o Brasil, principalmente no que tange
às décadas de 1960 até 1980.
Palavras-chave: Roberto Campos, Liberalismo, Economia
1 - Roberto Campos, o “solitário liberal”.
Para entender o pensamento político e econômico de Roberto Campos, deve-se
primeiramente compreender sua formação intelectual. Formado em Filosofia em 1934 e
Teologia em 1937, vem a formar-se em economia nos Estados Unidos, país em que
atuará durante toda sua vida. Nos Estados Unidos, atuou como presidente do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico em 1952, e Embaixador do Brasil entre 1961
e 1963. Também foi o idealizador e um dos criadores do Fundo de Garantia por Tempo
de Serviço (FGTS) em 1966 juntamente com Castello Branco e Octávio Bulhões1 e o
Banco Nacional de Habitação (BNH) em 19642, além de outras reformas e medidas que
se converteram em benefícios a população brasileira.
1 L
ei n o 5.107, de

13 de setembro de 1966. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L5107.htm>Acesso em: 17 ago. 2010.
2 Lei nº 4.380, DE 21 de agosto de 1964. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L4380.htm> Acesso em: 17 jun.2010.

2
O posterior “solitário liberal”3 vivenciou o contexto da Guerra Fria, o
antagonismo entre dois céus e dois infernos, onde os opostos regimes ao mesmo tempo
divulgavam êxito total, e taxavam uns aos outros como fracassos cambaleantes. Em
outras palavras, a Guerra Fria significou a oposição entre dois modelos de sociedade – a
capitalista e a “socialista”, em que as “duas superpotências aceitaram a distribuição
global de forças no fim da Segunda Guerra Mundial, que equivalia a um equilíbrio de
poder desigual, mas não contestado em sua essência” (HOBSBAWN, 2003: 224). A
URSS controlava uma parte do globo, que o exército vermelho e tropas de força militar
comunista estavam ocupando desde a II Guerra Mundial, já os EUA, por outro lado,
controlava a outra parte do globo, o Ocidente, através do consumo, impulsionado pelas
políticas econômicas americanas, em vista de deixar sua balança comercial sempre
favorável. Ao mesmo tempo, as duas potências evitavam um confronto direto de forças,
para não provocar uma III Guerra Mundial.
No caso do Brasil, nesse contexto de Guerra Fria, certas autoridades
governamentais e as alites econômicas e intelectuais se encontravam temerosas com
relação ao regime soviético, tanto que muitos governantes e pessoas influentes, como o
próprio Roberto Campos, sempre lutaram contra a inserção e práticas de idéias
comunistas no país. Em termos econômicos, principalmente na década de 1950, “a
poupança interna permanecia cronicamente baixa, mantendo assim também o
investimento baixo. E o esperado capital estrangeiro para complementar o investimento
nacional não era suficiente” (SKIDMORE, 1998: 205).
Em termos de pensamento econômico, o antagonismo oferecido pela economia
liberal - livre mercado, em relação à socialista – planejamento em todos os setores -
parece ter encontrado a resposta numa terceira via, assim como seu conterrâneo Hélio
Jaguaribe, por exemplo, propunha uma “economia mista”. Essa teoria sobre “economia
mista” expõe que o Estado desempenharia um papel crucial no planejamento e
intervenções criando mecanismos para o controle de oferta e demanda inclusive, tendo
como teórico fundador John Maynard Keynes em seus escritos sobre teoria
macroeconômica.4 Inicialmente Campos, adere a essa teoria nos anos 50, apesar desta
3 Considerado “solitário”, pois fora o único liberal a compor uma cadeira na Associação Brasileira de
Letras, em 23 de setembro de 1999, o qual o mesmo chamou de “Cadeira da Liberdade”, sendo tanto
sucedido quanto precedido por integralistas e comunistas.
4 A teoria macroeconômica está expressa na obra: A teoria geral do emprego, do juro e da moeda, sob
autoria de John Maynard Keynes. Que previa um maior controle do mercado pelo Estado, no qual a
poupança, investimentos e renda devem ter um equilíbrio estável entre si. Sendo somente possível a

3
teoria “mutilar o potencial de poupança e [...] perpretrar a inflação e o
subdesenvolvimento [...], pois a teurapêutica keynesiana aplica-se muito bem a
economias desenvolvidas em depressão, mas nunca a nações subdesenvolvidas com
inflação”, como foi dito por seu tutor Mario Henrique Simonsen.
Para Roberto Campos, nos primeiros países onde a industrialização ocorreu o
planejamento estatal é alheio, pois para ele, “o credo utilitarista e individualista se
constituiu na principal força desenvolvimentista” (CAMPOS, 1974: 24). Segundo
Simonsen:
Ao contrário do próprio Rostow, esse credo não se concentrou
exclusivamente na promoção de motivação lucrativa e na defesa da
propriedade privada, conforme a acusação marxista. Ao longo do
tempo, o credo individualista e utilitário evoluiu no sentido da defesa
da liberdade política e do voto unitário; implantou o controle de
monopólios, desenvolveu uma legislação social que moderou o
incentivo do lucro e tornou respeitável, senão dominante, a motivação
do bem-estar; e finalmente criou o imposto de renda progressivo,
como poderoso instrumento redistributivo e moderador da absorção da
mais valia pelo capitalista (SIMONSEN, 1974: 24).
Os países considerados em desenvolvimento possuem tendências socializantes e
estatizantes, devido a debilidade empresarial no setor privado. Partindo deste princípio,
Roberto Campos concede uma importância ao setor privado para com a economia.
Campos definiu, por exemplo, que países onde o empresariado é debilitado, são
geralmente considerados “em desenvolvimento”. Declarando também que “um dos
principais problemas da iniciativa privada na América Latina resulta do contínuo
intervencionismo estatal e da imprecisão ou inconstância da delimitação de áreas e
funções entre o setor público e privado” (CAMPOS, 1972: 15)
Roberto Campos atrelava ao índice de desenvolvimento o fomento à
industrialização, devendo o Estado incentivá-la, sendo essa uma concessão ao
liberalismo. Podemos notar a prática desta teoria principalmente no segundo governo
Vargas, com a criação do Vale do Rio Doce em 1942 e criação da Companhia
Hidroelétrica do São Francisco em 1945, só para citar alguns exemplos. E mais
claramente essa industrialização se deu no governo de Juscelino Kubitschek com a
realização desse planejamento através do controle sob a taxa de juros e demanda por moeda.

4
implementação do Plano de Metas, onde os “cinquenta anos de progresso em cinco”
eram a representação da necessidade de uma rápida industrialização dos países ainda
agrários, como o Brasil, pois “o objetivo era unir o Estado e o setor privado numa
estratégia de alto crescimento, com a finalidade de acelerar a industrialização e a
construção da infra-estruta para sustentá-la” (SKIDMORE, 1998: 203)
Já nos anos de 1960 há uma preocupação maior em relação ao comunismo, pois
a Revolução Cubana ocorrera em 1959 e a esquerda tornava-se cada vez mais
heterogênea, principalmente, nas universidades, onde era motivo de adoração a
Teologia da Libertação e os “nacionalistas radicais”. Porém, em contrapartida, havia
setores mais conservadores, que mesmo sendo simpático para com o liberalismo
econômico, era “protecionista”. Cabe esclarecer que essa esfera conservadora que
simpatizava com o liberalismo econômico se enquadra no “conceito plutocrático de
liberdade e da disciplina5”, proposto por Mannheim.
Roberto Campos sente-se ultrajado pelo governo de João Goulart que, para ele,
ameaçava não só a propriedade privada com suas reformas, mas a autonomia brasileira.
Goulart assume a presidência com uma inflação de 34,7% em 1961, chegando a ponto
de em 1964 a inflação atingir os 100%. Desta forma, logo houve o apoio de Campos ao
golpe de 1964, alinhando-se às politicas de Castelo Branco (1964-1967), pois:
“[...] a partir de 1964, face à ameaça de caos social que poderia
descambar num autoritarismo de esquerda [...] surge como elemento
de contenção do populismo distributivista, do regionalismo dispersivo
e do personalismo político o golpe de 64” (SIMONSEN, 1974: 228).
Por isso, Roberto Campos declarou que “na primeira parte dos anos 60 o Brasil
perdeu seu ímpeto desenvolvimentista que tinha nos anos 50, por desastres políticos”
(SIMONSEN, 1974: 25). Neste sentido, apoiou as políticas do presidente Castelo
Branco, pois sua função era “reafirmar a autoridade para salvar a liberdade” (CAMPOS,
1968: 354). Segundo Campos, as medidas de Goulart de nacionalizar refinarias de
5 Esse conceito elaborado por Karl Mannheim consiste em quando, uma classe limitada de ricos aplica
ideologia liberal sem levar em consideração as mudanças sociais. A liberdade econômica deve ser
expressa, diminuindo o papel do Estado. Porém a liberdade social é tolhida de certos grupos.

5
petróleo privadas e desapropriar terras em prol da Reforma Agrária ameaçavam as
finanças.
Logo, em Roberto Campos, percebe-se que para uma sociedade tornar-se
moderna e industrializada, certo grau de autoritarismo era inevitável. No caso de 1964
alguns militares consideravam a intervenção militar algo temporário, apenas para
corrigir a indisciplina social, estancar a inflação e retomar o desenvolvimento, sendo
considerado esse modelo de uma democracia participante com um executivo forte.
Desta forma:
“O Congresso expurgado prontamente elegeu [...] Castelo Branco [...].
Os tecnocratas eram liderados por Roberto Campos, diplomata e
economista e destacado crítico do governo Jango em seus últimos
tempos. Campos trazia consigo uma equipe de economistas e
engenheiros, muitos dos quais tinham contribuído para a criação de
um think tank, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), no
Rio de Janeiro e São Paulo. Eles assumiam o poder com idéias claras e
convencionais sobre como conter a inflação e restaurar o crescimento
econômico no Brasil” (SKIDMORE, 1998: 216).
Cabe acrescentar que Campos atuou efetivamente na economia brasileira no
governo de Castelo Branco até 1967, sendo sucedido por seu rival Delfim Neto no
governo de Costa e Silva. No primeiro governo militar ocorreu o “milagre econômico”
gerenciado por Campos, em que a inflação fora reduzida de 92% em 1964 para 28% em
1967, abrindo espaço ao boom, com uma média de expansão de 10,9%, possibilitando a
oferta de crédito e crescimento no setor industrial posteriormente. Contudo, provocou
desigualdades entre os trabalhadores, entre as regiões e desigualdades de renda.
Para Roberto Campos, um grande número da população brasileira não possuía
capital suficiente para sua subsistência, algo que segundo ele se agravava pelo rápido
crescimento demográfico, sendo algo típico de países subdesenvolvidos, os quais
faziam uma relação entre mão-de-obra  capital; capital  mão-de-obra e terra, o que
diminuía a vantagem competitiva e a remuneração do trabalho. Sendo assim deveria
ocorrer uma industrialização lenta e gradual, segundo Gudin, pois a “economia
brasileira, como a do restante da América Latina, sofria de baixa produtividade e pleno
emprego, e não de especialização em atividades agrícolas e de desemprego”.
(BIELSCHOWSKY, 2002: 55)
2. Planejamento, Desenvolvimento e Nacionalismo.

6
Cabe esclarecer que a teoria do planejamento é algo menos concreto do que o
projeto, possuindo suas diferenças entre os países de economia capitalista ou socialista,
de cunho marxista ou moderado. Em países considerados subdesenvolvidos a teoria do
planejamento segue uma linha distinta das outras duas citadas anteriormente, devido às
particularidades que seus setores apresentam. Há argumentos a favor da teoria do
planejamento e contra também, em que:
Um dos vários argumentos de que se lança mão para demonstrar a
inevitabilidade do planejamento, e o mais frequente usado, é o de que
as transformações técnicas tornaram impossível a concorrência em
capos cada vez mais numerosos e só nos resta escolher duas
alternativas: ou o controle da produção por monopólios privados,
através de trustes e cartéis [grifo meu], ou direção pelo governo
(HAYEK, 1984: 78).
A teoria de planejamento adotada por Campos é a de Carl Landauer6, que se
definiria como uma “orientação das atividades econômicas por um órgão comunal,
mediante um esquema que descreve, em têrmos quantitativos assim como qualitativos,
os processos produtivos que devam ser empreendidos durante um período de futuro
prefixado” (CAMPOS, 1963: 10).Tanto o planejamento quanto a intervenção estatal são
positivos aos países subdesenvolvidos, visto que um dos principais problemas do
planejamento reside no setor empresarial, principalmente entre a empresa estatal e
estrangeira: a estatal exige concentração de capital contra a alta tecnologia das
estrangeiras, logo para corrigir essa debilidade do empresariado nacional, o Estado deve
estimulá-lo através de auxílios, pois essa debilidade é fruto de uma má distribuição de
renda associada à inexperiência dos profissionais da área. Inclusive devido a isso há
órgãos de crédito internacionais voltados à pequena e média empresa, tal como o
6 Carl Landauer (1891-1983) foi um professor emérito alemão que atuou na área de economia em
diversos países, vindo a falecer nos Estados Unidos, último país que atuou. Em 1912 se tornou membro
do Partido Social Democrata alemão, foi quando começou a escrever sobre economia. No período da
Segunda Guerra, lutou pela democracia e contra a ascensão do nazismo. Faleceu aos 92 anos, dois dias
depois de publicar seu último livro.

7
FUNDECE, FINAME e FIPEME7, constituindo assim uma “nacionalização do crédito
externo”.
A teoria de Roberto Campos, num segundo momento, já no regime militar,
sofreu uma influência da Escola de Freiburg. Para esta escola econômica alemã, no
âmbito de suas deliberações, ela tem por premissa o providencialismo – em que as ações
econômicas dos indivíduos promovem sua prosperidade e o automatismo do mercado,
composta por forças imanentes, que regulam os setores econômicos. Cabe acrescentar
que a teoria de Roberto campos também foi influenciada pelo pensamento econômico
de Mario Simonsen, o qual fora um dos fundadores do conhecido desenvolvimentismo
em 1944, época onde “o planejamento e a industrialização emergiram no Brasil,
portanto como questões extremamente politizadas” (SOLA, 1998: 75).
Dentre as teorias desenvolvimentistas, os aspectos mais destacados eram: o
crescimento de salários e indústrias, expansão do mercado interno e as medidas de base
na educação e saúde, medidas essas necessárias para que os países subdesenvolvidos
pudessem obter alguma ascensão no cenário interestatal. Esse discurso será reavaliado e
incorporado pela própria CEPAL posteriormente, chegando até 1952 com a criação do
BNDE, com ativa participação de Roberto Campos na área técnica, onde o tão preterido
investimento de capitais externos e ampliação do mercado interno foram as principais
medidas realizadas por esse órgão de fomento ao empresariado industrial.
Cabe afirmar que a ideologia do desenvolvimento toma forma com o governo de
Juscelino Kubitschek, tornando-se uma preocupação freqüente a partir da década de
1950 no Brasil, e inclusive nos países onde a taxa de crescimento vinha sendo mais
elevada. O capital estrangeiro nessa década “é visto como necessário para acelerar o
7 FINAME: Agência Especial de Financiamento Industrial é um órgão subsidiário ao BNDES (Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), criado em setembro de 1964. Oferece
financiamentos, sem limite de valor, para aquisição de máquinas e equipamentos novos, de fabricação
nacional, através de instituições financeiras credenciadas.
FIPEME: Programa de Financiamento à Pequena e Média Empresa. Criado em 1964, e vinculado ao
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), o FIPEME torna-se uma unidade operacional
com a reestruturação do banco, um sistema de apoio gerencial às micro e pequenas empresas.
FUNDECE: Fundo de Desenvolvimento da Educação e Capacitação Empreendedoras das micro-
empresas. Tendo como objetivo, a geração de recursos financeiros exclusivamente para desenvolvimento
de programas e projetos de formação e capacitação nas áreas de empreendedorismo, gestão, informação,
tecnologia e inovação, objetivando a profissionalização e melhoria da competividade das micro e
pequenas empresas brasileiras.

8
aumento da renda”, dessa forma através dos investimentos desse capital, se pensava que
a taxa de crescimento se elevaria, porém:
O principal problema é a dependência tão forte das relações de
intercâmbio, em que todo este processo depousou, e a influência muito
pequena que uma economia como a brasileira é capaz de exercer para
controlá-las a seu favor8.
Dos principais argumentos, um era a favor da inserção do capital estrangeiro no
governo de Juscelino era que ele não se pautava num debate emocional, mas numa
necessidade técnica, a fim de fortalecer a economia. Esse capital foi amplamente
empregado na industrialização, para que o país se tornasse soberano e próspero. Para
Juscelino, esse investimento na indústria terminaria com pensamento colonialista
brasileiro. Na concepção de JK, o nacionalismo se define pelo desenvolvimento, de
cunho anticomunista, pois se baseia na defesa da Nação e repúdio a subversão, onde:
Num país como o Brasil, o que é colonizador é a ausência de
investimentos, ausência de empregos e capitais. Não somos mais
nação colonizável. Acreditar na possibilidade de sermos escravizados
por influências do dinheiro estrangeiro é o mesmo que concluir pela
nossa personalidade nacional e ao nosso caráter de povo formado
(CARDOSO, 1977: 140).
No caso da presidência de Juscelino, essa ideologia do desenvolvimentismo
toma forma e clareza em seus objetivos, pois havia uma maior preocupação com os
países em crescimento como o Brasil na época. Por isso deviam-se lançar no mercado
os produtos brasileiros, pois a partir do capital nacional seria gerada a exportação,
porque essas relações com o mercado externo prejudicavam os países mais fracos
economicamente.
Por sua vez, Campos se apresenta como um antinacionalista, em suas obras, o
autor acredita que o nacionalismo mais se preocupa em distribuir riquezas do que em
produzi-las, além de em outras instâncias ser até mesmo xenófobo e, consequentemente
excludente. Redistribui riqueza para os pobres, discrimina a agricultura e enaltece a
8 BNDE – Exposição sobre Programa de Reaparelhamento Econômico, exercício de 1955, p. 4.

9
indústria – atendendo aos interesses da classe média; tende a favorecer a propriedade
coletiva e estatal para a socialização de empregos para a clásse média emergente,
dificultando em assegurar carreiras. Essa opinião de Campos é um contra-argumento ao
nacionalismo moderado do governo Vargas, relacionado com a “política de massas e
com o estilo populista [...], em resposta ao processo de redistribuição de recursos
políticos associado à concorrência eleitoral e à crescente integração das massas urbanas
à vida política” (SOLA, 1998: 94).
3. Teorias deturpadas e ações controversas
“(...) as deformações de mentalidade são nossos verdadeiros inimigos.
Há muito luto contra três deles: o pseudonacionalismo, o
pseudoigualitarismo e o pseudoliberalismo” (CAMPOS, 1987: 05).
O “pseudonacionalismo”, segundo Roberto Campos se caracteriza pela retórica
agressiva em detrimento de uma opção pela solução mais eficaz. Suas barreiras, quase
xenofóbicas, rejeitam o que não podem substituir, ou seja, os resultados são substituídos
pelo discurso agressivo e antiliberdade. O nacionalismo vivenciado por Campos em sua
época concentrava os poderes econômicos e de mercado no Estado, declarando-se até
mesmo antinacionalista, pois:
[...] se alguma coisa a história nos ensina é que a concentração do
poder econômico no Estado acaba afirmando mais cedo ou mais tarde
o pluralismo político, pois o poder nacional é uma categoria intuitiva
como sendo, o poder de coerção que uma nação pode exercer sôbre as
outras, quer por métodos pacíficos, quer por métodos militares
(CAMPOS, 1964: 37)
O “pseudoigualitarismo”, advindo pelo que Lord Action se refere como “fatal
posição pela igualdade”, promete assegurar o sucesso de todos, enquanto se mostra
possível ao estado na melhor das hipóteses, facilitar o acesso a tal como adubo da
demagogia feita à liberdade e oprime a competição, fomentadora da renovação e do
progresso. Porém baseado na teoria de Friedman, o liberalismo econômico é antecessor
ao político, e uma possível igualdade viria a posteriori, tal como Friedman afirma no
trecho a seguir:

10
[...] De um lado, a liberdade econômica é parte da liberdade entendida
num sentido mais amplo e, portanto, um fim em si próprio. Em
segundo lugar, a liberdade econômica é também instrumento
indispensável para a obtenção da liberdade política (FRIEDMAN,
1985: 17).
O “pseudoliberalismo” é uma crença para que a liberdade étnica e econômica
seja distinta. Por isso, não é concebível cogitar que existam países liberais sem que a
esfera social e econômica não seja coerente entre si, ou seja, livres. Fundamentalmente
só há dois meios de coordenar as atividades econômicas, uma é a direção central
utilizando a coerção – a técnica do Exército ou Estado totálitário. O outro é a
cooperação voluntária dos indivíduos – a técnica do mercado. Portanto, se culturalmente
a ojeriza entre os indivíduos continua a prevalecer, mesmo num país liberal para com
sua economia, logo esse mesmo país não é liberal, mas sim um “pseudoliberal”,
segundo a perspectiva de Roberto Campos.
No caso do Brasil, muitos governos mostraram tentativas e ainda a aplicação ao
mesmo tempo de uma política parcialmente liberal e intervencionista na economia. No
caso do segundo governo Vargas, mesmo sendo um Estado de Sítio, algumas dessas
políticas liberais foram realizadas, tal como a criação, em seu governo, da Comissão
Mista9 de estudos técnicos voltados à economia, contando não apenas com profissionais
brasileiros, mas americanos também. Ainda no governo Vargas, foram selecionados
técnicos nacionalistas da Assessoria Econômica10, mobilizados juntamente com os
considerados cosmopolitas, o qual Roberto Campos fazia parte, sendo a maioria em
número. “Desse modo, os técnicos de um dos grupos puderam participar ativamente do
processo decisório, embora articulados em arenas bastante distintas” (SOLA, 1998: 96).
Nessa comissão mista é bom reiterar que, considerado da ala cosmopolita,
existiu um teórico de idéias desenvolvimentistas de destaque – Eugênio Gudin, que
em 1944, redigiu o Projeto de Lei que institucionalizou o curso de Economia no Brasil.
Ao longo de 100 anos de vida, esteve presente no cenário econômico nacional, atuando
como delegado brasileiro na Conferência Monetária Internacional, realizada em Bretton
Woods (EUA), governador brasileiro junto ao Fundo Monetário Internacional de 1951 a
1956 e Ministro da Fazenda no governo Café Filho, onde “discutiu de forma qualificada
os principais problemas econômicos brasileiros e procurou adaptar a teoria
desenvolvimentista dos países desenvolvidos à realidade dos subdesenvolvidos”
9 Faziam parte desta Comissão: Eugênio Gudin, Otávio Gouveia de Bulhões e Valder Lima Sarmanh.
10 Faziam parte da Assessoria Econômica os economistas: Cleanto Paiva Leite, Inácio Rangel, Roberto
Campos e como informal Celso Furtado.

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