Um Estranho Dentro de Mim
Lu Mounier
1
- SUMARIO -
Capitulo 01
-
03
Capitulo 02
-
09
Capitulo 03
-
15
Capitulo 04
-
23
Capitulo 05
-
31
Capitulo 06
-
38
Capitulo 07
-
44
Capitulo 08
-
48
Capitulo 09
-
53
Capitulo 10
-
56
Capitulo 11
-
64
Capitulo 12
-
67
Capitulo 13
-
70
Capitulo 14
-
73
Capitulo 15
-
77
Capitulo 16
-
81
Capitulo 17
-
88
Capitulo 18
-
92
Capitulo 19
-
96
Capitulo 20
-
101
Capitulo 21
-
106
Capitulo 22
-
112
Capitulo 23
-
116
Capitulo 24
-
121
Capitulo 25
-
124
Capitulo 26
-
127
Capitulo 27
-
132
Capitulo 28
-
137
Capitulo 29
-
141
Capitulo 30
-
146
Capitulo 31
-
151
Capitulo 32
-
158
Capitulo 33
-
164
Capitulo 34
-
168
Capitulo 35
-
173
Capitulo 36
-
178
Capitulo 37
-
185
2
CAPITULO 1
A vida e muito engracada. As vezes estamos sozinhos e sentimos a falta de alguem
ao nosso lado, e quando encontramos esse alguem, queremos ficar sozinhos. "A felicidade
nao existe, o que existe sao momentos felizes", eu acreditava nesse pensamento ate que um
acidente me provou que a felicidade existe sim, e que nos perdemos a oportunidade de
vive-la por orgulho, bobagens da vida. Se eu pudesse voltar atras, faria tudo diferente.
Agora tenho consciencia de que poderia ter evitado muitas coisas e aproveitado mais.
Meu nome e Bader, nasci em Sao Paulo, mas fui criado em Campinas. Com 22 anos
eu ja era independente, tinha uma vida estavel e morava sozinho desde os 18 anos.
Digamos que "sozinho" mesmo ha pouco tempo, pois quando eu namorava o Bruno
viviamos juntos, ele passava mais tempo na minha casa que na casa dele. Eu sou assumido
entre todos da familia e trabalho, e apesar de ser gay, nunca fiz nada que meus pais
pudessem se envergonhar, pelo contrario, sempre fui o orgulho da familia.
Quando passei no vestibular foi uma festa em casa, meu pai fez um churrasco e
convidou todos os parentes, foi muito bom ter a familia reunida. Naquela tarde rimos
bastante com as piadas do tio Ricardo, devoramos os doces da tia Cida, tomei banho de
mangueira com meus primos... Tenho saudade daqueles tempos. Cresci em uma familia de
3 irmaos, eu era o do meio, tinha o Pedro, que era o mais novo e o Rodrigo, que era o mais
velho. A diferenca entre cada irmao era de 5 anos, sempre tivemos de tudo, principalmente
carinho, amor, disso nao tenho do que reclamar, sempre fui mimado pela minha mae, acho
que isso me estragou um pouco.
Eramos uma familia tipica de classe media. Viajavamos nos feriados, almocavamos
e jantavamos com todos a mesa e passeavamos aos finais de semana. Eu e meus dois
irmaos iamos para a escola durante a semana: informatica, ingles e natacao. Foi uma
infancia muito boa.
Logo depois de passar no vestibular, me mudei para Sao Paulo, assim eu ficaria
mais perto da faculdade. Meu pai alugou um apartamento e mudei logo em seguida. No
meu segundo ano de faculdade eu consegui um emprego na area que estava fazendo, que
era Publicidade. Desde entao, comecei a viver com meu proprio dinheiro. Depois que me
formei, fui promovido na empresa e meu salario triplicou.
Minha vida estava otima, tinha meu apartamento, meu carro e um namorado que
amava demais, pelo menos era o que eu pensava.
Certo dia, ao chegar em casa, percebi um bilhete sobre a mesa:
"Bader,
Desculpe por te comunicar dessa maneira, mas acho que nosso relacionamento
chegou ao fim. Conheci uma outra pessoa e nao quero mais te enganar.
Desculpas sinceras.
Ass.: Bruno."
Ser abandonado por alguem que voce gosta doi, machuca, fere. Comecei a chorar e liguei
para minha mae em Campinas. Nessas horas eu sempre procurava os conselhos da minha
mae que sempre vinham na hora certa.
- Alo?
- Mae?
- Oi filho...
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- Mae... O Bruno me deixou...
- Mas por que, Bader?
- Nao sei, deixou um bilhete dizendo que encontrou outro alguem e se apaixonou...
- Filho, o que e seu ninguem tira, se ele te deixou, e porque algo melhor e
merecedor espera por voce.
- So voce pra me entender, mae.
- Acredite, Bader, nada em nossas vidas acontece por acaso.
- Sera, mae?
- Um dia voce vai me dar razao. Nao fique chorando por isso, meu filho! Procure
fazer algo para se distrair, quem sabe voce encontra um sentido e um incentivo para viver
algo novo?
- Acho que a senhora tem razao. Obrigado pelas palavras.
- Te amo!
- Eu tambem.
Depois de falar com minha mae, me senti bem melhor. So ela conseguia me animar.
Peguei o jornal e comecei a olhar os classificados de imoveis. Decidi que compraria um
novo apartamento e venderia o meu, assim eu me livraria das lembrancas do Bruno que
marcaram aquele lugar.
Durante a semana eu fui trabalhar normalmente. Estava abarrotado de pecas para
criar, gracas a Deus nao me faltava trabalho. Minha vida financeira era bem tranquila por
ser bem sucedido no que fazia.
Um dia quando estava voltando pra casa, parei no semaforo da Avenida Brigadeiro
Faria Lima e me entregaram um panfleto de uns apartamentos recem-construidos, com 3
dormitorios, 2 vagas, bem amplo no bairro de Higienopolis em Sao Paulo. Fiquei
interessado e no outro dia fui ate o local onde os corretores estavam de plantao. Visitei o
apartamento decorado e me encantei, era lindo e bem confortavel, fechei negocio, podendo
me mudar a hora que eu quisesse.
Consegui vender meu antigo em menos de uma semana apos anuncia-lo, pois sua
localizacao era otima, sem contar na estrutura bem acomodada. Deu um pouco de trabalho
quanto a mobilia do meu novo apartamento, pois eu queria moveis planejados, que fossem
a minha cara, feitos especialmente para a minha casa e que dessem um ar de modernidade e
espaco.
Desenhei tudo o que eu queria e como eu queria. Depois levei a loja de moveis
planejados e encomendei tudo, nao queria mais nada do antigo apartamento, preferi deixar
no passado o proprio passado.
Eu estava todo entusiasmado com meu novo apartamento, sem contar que ficava
proximo ao shopping, onde eu costumava ir malhar na academia.
Em 45 dias me mudei definitivamente. Chegar em casa e sentir aquele cheiro de
"novo" era otimo. A Dani estranhou um pouco, mas com o tempo ela ia acostumar. A
tristeza ainda permanecia por conta de ser abandonado pelo Bruno, mas nada poderia fazer,
a nao ser seguir minha vida de cabeca erguida, pois nenhum mal e tao ruim que durasse
para sempre.
Acordei em uma manha de sabado ensolarado morrendo de fome. Levantei e fui ate a
cozinha preparar algo para comer. Abri a porta do armario e notei que havia esquecido de
fazer compras. Voltei para o quarto e troquei de roupa para ir ao mercado comprar o que
faltava. Uma amiga minha sempre dizia que o melhor remedio para a tristeza era fazer
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compras, assim, comecei a notar que ela tinha razao. Peguei a Dani e a levei junto comigo
para o supermercado que havia no shopping.
Levei-a ao pet shop para tomar banho e ate comprei umas roupinhas para ela. Na
volta pra casa coloquei um CD e comecei a ouvir musica em alto volume. Fui cantando e
dancando enquanto dirigia. A Dani subiu no meu colo e foi com a cabeca para fora da
janela como ela gostava de fazer.
O dia estava lindo, ensolarado. Tudo estava se tornando perfeito ate que no
cruzamento da Avenida Angelica apareceu um cachorro na minha frente. Para nao atropela-
lo eu desviei bruscamente e acabei batendo em outro carro. A batida foi tao forte que meu
carro girou tres vezes ate bater contra um poste do outro lado da rua, deixando as marcas
dos pneus no asfalto. O vidro ao lado do motorista se partiu na hora, voando estilhacos para
todos os lados e o volante do carro por pouco nao comprimiu meu peito.
Era bom demais para ser verdade. Quando achei que tudo em minha vida comecara
a dar certo, tinha que acontecer alguma coisa para estragar meu dia.
O motorista do outro carro nao sofreu nada, em compensacao, tive uma luxacao no
braco e um corte na cabeca. A minha camisa que era branca estava molhada de sangue. So
percebi que havia cortado a cabeca quando senti algo quente escorrer pelos meus olhos.
Sai do carro para ver o estrago que a batida havia feito. O lado do passageiro ficou
completamente destruido, a sorte era que a Dani estava no meu colo, caso contrario ela nao
teria escapado.
- Caramba...
- Voce precisa prestar mais atencao no transito...
- Desculpa, voce se machucou?
- Gracas a Deus, nao. Mas voce esta ferido...
- Nao foi nada.
- Sua cabeca esta machucada, voce precisa de socorro urgente...
Com o celular na mao ele comecou a chamar ajuda, depois disso nao vi mais nada.
Acabei desmaiando, acordei no hospital, um pouco atordoado ainda, me lembrava
vagamente do acidente. Esta certo que eu fechei o carro do rapaz sem querer, mas ele
poderia ter evitado o acidente se nao estivesse distraido falando ao celular em alta
velocidade.
Quando acordei ao meu lado estava ele, andando de um lado para o outro com a
mao esquerda apoiada na cintura e a outra na cabeca.
- Nao tente se levantar, pode afetar sua coluna.
- O que estou fazendo aqui...?
- Voce desmaiou, tem algum parente seu para vir aqui ficar com voce?
- Nao, eu moro sozinho em Sao Paulo.
- Mas voce precisa de um acompanhante... Vamos fazer o seguinte, eu vou buscar
minha mina na faculdade e depois volto aqui pra saber como voce esta.
- Valeu pela forca... Mas nao se preocupe, eu me viro
- Nada disso, me sinto na obrigacao.
- Humpft... Eu ja estou bem.
- Mesmo assim eu volto pra ver como esta.
- Nao esquenta.
- Melhoras pra ti.
- Valeu.
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O cara era gente boa. Diferente de muitas pessoas por ai que por qualquer coisa ja
arma um circo. Minha cabeca estava com um curativo ao lado direito. Meu braco tinha uma
faixa e uma tipoia apoiando. As vezes doia um pouco quando eu mexia, mas a enfermeira
me deu um remedio para aliviar que me deu sono, me fazendo dormir por um bom tempo.
Nunca gostei de hospital. Desde crianca sempre tive trauma de enfermaria, depois
de ter caido de bicicleta aos 7 anos e quebrado a perna.
No comeco da noite o rapaz do acidente voltou ao hospital, bem na hora que eu
estava recebendo alta, mas necessitaria de um acompanhante para me liberarem do hospital,
caso contrario nao poderia deixar o local.
- Ooooooi... A enfermeira disse que voce ja pode ir para casa.
- E... Perdi meu celular, preciso ligar para minha mae vir me buscar.
- Mas voce nao disse que mora sozinho em Sao Paulo?
- Eu moro sozinho, mas minha familia tambem nao mora tao longe assim.
- De onde eles sao?
- Eles moram em Campinas.
- Nao va preocupar sua mae, eu assino a responsabilidade de te acompanhar, pode
ser?
- Eu so estou atrasando sua vida...
- Nao se preocupe, pelo menos eu me distraio um pouco, estou precisando...
- O que aconteceu?
- Depois te conto.
- Ok.
- Deixa eu te ajudar... Assim...
- Obrigado.
A enfermeira chegou para informar que eu estava de alta e ja poderia sair. Entregou
para o rapaz assinar a responsabilidade e fui liberado do hospital. Eu ja nao aguentava mais
aquele cheiro de alcool, nao via a hora de sair e chegar em minha casa e deitar na minha
cama.
- Entao... Eu vou te levar em casa...
- Mas... Seu carro...
- E o carro da minha mae, o meu o seguro ja levou para arrumar.
- Entendi... Humpft... Ja o meu...
Fomos ate seu carro, caminhando calmamente, pois meu corpo estava dolorido por
causa do impacto no acidente. Com cuidado ele abriu a porta para mim, porque meu braco
estava imobilizado. Para minha surpresa, dentro do carro estava a Dani, que ao me ver nao
parava de latir.
- Dani... Olha o papai aqui...
- Eu esqueci de te avisar, sua cachorra ficou na minha casa, minha mae adorou ela...
- Obrigado por ter cuidado da Dani pra mim.
- De nada, sua cachorra e bem comportada e muito esperta, minha mae adorou.
- Acho que ainda nao nos apresentamos...
- E verdade, meu nome e Daniel.
- O meu e Bader... Humpft... Voce e um cara bacana.
- Por que?
- Porque eu bati no seu carro e voce ao inves de brigar comigo, esta me ajudando...
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- Faria a mesma coisa com qualquer outra pessoa... Sou contra a violencia no
transito, porque foi assim que perdi meu pai, e tambem eu errei por me distrair falando ao
celular.
- Entao e melhor mudarmos de assunto. Voce trabalha com o que?
- Sou formado em Educacao Fisica, e voce?
- Eu trabalho com Publicidade e Propaganda... O que foi?
- Nada, lembrei da minha ex-namorada apenas.
- Humpft... Entendi.
- Nos separamos hoje.
- Puxa... Que chato...
- Pois e... Foi melhor assim, nosso relacionamento ja nao estava dando certo. E
voce, namora?
- Eu nao, fui abandonado.
- Nossa... Que mau.
- Nada que um dia apos o outro nao resolva.
Quando chegamos perto de casa, ele parou o carro em frente ao edificio, onde
ficamos conversando um pouco mais.
- Eu moro aqui...
- Parecem serem grandes esses apartamentos.
- 3 dormitorios.
- Tudo isso so pra voce?
- Sim... Quando vem minha familia para ca, eles ocupam os outros 2.
- Ah... Entao ta explicado.
- Daniel... Eu tenho uma divida com voce...
- Eu ja disse que o seguro vai cobrir o prejuizo...
- Por isso mesmo, ficarei em debito contigo.
- Nao esquenta, voce me paga uma balada e fica tudo certo.
- Firmeza. Agora eu vou indo.
- Falou cara.
Durante aquela semana eu tive que levar o atestado medico na agencia onde eu
trabalhava. Ganhei 3 meses de afastamento por conta do braco, precisei tambem resolver
alguns assuntos com o seguro por conta do acidente com meu carro, que nao tinha nem 1
ano de uso e foi dado como perda total. Enquanto a seguradora nao me mandava um novo,
me forneceram um outro carro temporariamente.
Depois de ficar quatro dias em casa sem fazer nada, resolvi voltar para a academia,
fazendo exercicios de pernas para que meu corpo nao desacostumasse, pois meu braco
estava imobilizado. Eu costumava ir sempre a academia na hora de almoco ou de manha,
porque no meio da tarde e a noite eu trabalhava, mas como fui afastado por um tempo do
trabalho passei a ir na parte da tarde.
Era meu primeiro dia no novo horario. Fui ate a academia caminhando, porque
ficava dentro do shopping perto de casa. Passei meu cartao na catraca e estava bloqueado,
comuniquei a uma garota muito arrogante que estava na recepcao:
- Por favor, meu cartao esta bloqueado...
- Um momento... Voce e aluno?
- Nao... Achei essa carteirinha na rua e vim testar, que por coincidencia tem meu
nome e foto... E obvio que sou aluno... Meu horario e de manha, mas por esses meses quero
fazer a tarde.
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- Entao deve ser por isso... Eu ja libero pra voce.
- Obrigado.
Com muita ma vontade ela liberou a catraca pra mim. Depois que fica
desempregada, sai por ai chorando, dizendo que ninguem da oportunidade e nao tem sorte
na vida.
Fui ate o vestiario trocar de roupa. Guardei a mochila no armario e fui fazer
bicicleta, 1 hora de pedalada sem parar, fiquei logo na frente da fileira, atento ao cenario
que o professor criava no decorrer do treino. No termino da aula chegou outro professor,
mas como ja havia feito meus exercicios e estava um pouco cansado, resolvi lavar o rosto e
depois fazer um pouco de esteira.
Fui ate o vestiario e quando abri a porta senti que havia batido em alguem, quando
fui olhar quem era nao acreditei:
- Opa... Foi mal...
- Voce?
- Daniel?
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CAPITULO 2
- Eu acho que voce me odeia, cara...
- Foi mal... O que voce faz aqui?
- Eu trabalho aqui, e voce?
- Eu treino aqui.
- Se nao me engano, eu havia te contado que era professor de Educacao Fisica...
- Ah... E verdade... Que coincidencia...
- Pois e, nao pense que eu esqueci da balada.
- E verdade, e so marcar...
- Que estilo de musica voce curte?
- Eletronica, rock...
- Eu adoro musica eletronica...
- Eu conheco uma balada que toca umas legais.
- Fechado. Sabado esta bom pra voce?
- Pode ser.
- Falou.
Ja nao me senti bem encontrando o Daniel pela segunda vez dando-lhe uma
pancada, desse jeito ele ia me achar um atraso de vida, se e que ja nao me achava. Depois
de pagar minha divida com ele nao pretendia o ver nunca mais, tamanha era a vergonha que
havia ficado, o pior de tudo era que ele dava aula na mesma academia que eu malhava,
pensando bem, ate que faz sentido quando bati em seu carro, estavamos proximos do
shopping... Ele deveria estar saindo da academia na hora do acidente.
Na terca-feira cheguei um pouco mais cedo na academia, pois nao consegui dormir
com os latidos da Dani por causa do gato da vizinha, ao entrar na academia notei que o
Daniel ja estava la, um pouco triste.
Fui ate o vestiario deixar minha mochila e trocar de roupa, depois peguei minha
ficha nos arquivos e fui fazer esteira, programei a esteira como sempre fazia e comecei a
caminhar, o Daniel se aproximou de mim para colocar presenca na ficha:
- Bom dia!
- Bom dia, Daniel! Tudo bem com voce?
- Humpft... Estou um pouco depre...
- Aconteceu algo?
- Mano... A vida e tao cruel cara...
- Olha, se voce precisar desabafar, quiser trocar uma ideia, pode contar comigo,
bele?
- Voce se importa se eu te alugar um pouco?
- Relaxa, se precisar estamos ae.
- O que voce vai fazer depois daqui?
- Vou pra casa, por que?
- Esta a fim de dar um role?
- So se voce dirigir...
- Beleza.
Depois do treino, fui ate o vestiario tomar um banho pra tirar o suor, passei
desodorante para nao ficar transpirando igual uma torneira, Daniel ja me esperava no
estacionamento da academia, entrei no carro e seguimos sem rumo, sem destino.
- Alguma vez voce ja se sentiu culpado pela tristeza de alguem?
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- Isso acontece as vezes...
-E assim que estou me sentindo, um lixo.
Daniel estacionou o carro em uma vaga de zona azul e fomos conversando e
caminhando pelo Centro de Sao Paulo. Nenhum ser humano e livre de problemas, todos
temos problemas e quando achamos que estamos livres de um, aparece outro, seguido de
outro e mais outro. Paramos no Vale do Anhangabau e ficamos sentados conversando, em
frente ao Municipal.
- Lembra daquele namoro que eu te falei que havia terminado?
- Sim, lembro.
- Pois e, ela tentou se matar por isso.
- Caramba...
- E o pior de tudo e que ela estava gravida, esperando um filho meu...
- E complicado, mas pense que voce nao e culpado...
- Claro que sou...
- Claro que nao, voce sabia que ela estava gravida?
- Nao, fiquei sabendo hoje.
- Entao, voce nao deve se achar culpado por algo que nao cometeu, se voce
terminou um relacionamento e porque nao estava mais afim, ela teria que ser adulta o
suficiente de entender isso, pra mim nao passa de infantilidade.
- Eu fiquei triste...
- Eu compreendo que voce tenha ficado triste, mas voce nao deve ficar guardando
uma culpa que nao e sua, ficar carregando fardo dos outros.
- Mas era meu filho...
- Sim, era uma vida inocente que pagou pela irresponsabilidade da mae.
- Nao aguento mais pressao em cima de mim.
- Voce precisa se distrair, ocupar sua cabeca com outras coisas.
- E... Mas nao tenho amigos que curtam umas loucuras...
- Agora voce tem a mim.
- Da hora cara, pra onde vamos entao?
- Agora?
- Demoro...
- Ja sei.
Saimos do Centro e fomos para um parque de diversoes aqui mesmo em Sao Paulo,
fazia tempo que eu nao ia a um lugar desses. Nao estava muito cheio, o dia estava
ensolarado, ainda bem que eu estava de bone, se nao iria ficar todo queimado de sol.
- Nossaaaaaaaaaaaaa... Bader voce e o cara... Faz muito tempo que eu nao
venho num lugar desses...
- Entao vamos aproveitar.
- Com CER-TE-ZA.
- Vamos comecar pelo SkyCoaster?
- So se for agora.
SkyCoaster era uma especie de rede que era segurada por alguns cabos e erguida ate
o topo de uma torre, onde era dado um sinal e nos puxavamos uma corda onde liberava a
descida.
Colocamos a rede com a ajuda dos instrutores, no comeco me deu um frio na
barriga, so de pensar em despencar la do alto segurado apenas por dois cabos me deixava
de perna bamba, mas o Daniel me encorajou.
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